Como disse certa vez Milan Kundera: “Existe uma glória antes da invenção da fotografia e outra depois”. Essa é a constatação que se faz após alguns episódios que ocorreram no Brasil, em que um foragido da polícia, participante de um dos grandes escândalos de corrupção da história recente do país, e um homem “liberto” após cumprir pena por assassinato foram assediados por fãs sedentos por selfies que seriam posteriormente postadas nas redes sociais. Sim, estou falando de Eike Batista e do goleiro Bruno. Sobre a Era da Imagem ou simplesmente a Era do Instagram.

O estranhamento ocasionado pelas situações supracitadas é que elas ocorreram com dois delinquentes, uma vez que eles cometeram crimes e quebraram o pacto social estabelecido. Dessa forma, o que poderia levar pessoas comuns ao assédio de criminosos, posto que na grande maioria dos casos inexiste a boa vontade da sociedade em reintegrar o indivíduo que cometeu um delito?

Uma boa resposta pode ser encontrada no filme “Psicopata Americano” dirigido por Mary Harron e baseado no romance homônimo do escritor americano Bret Easton Ellis. A obra conta a história de Patrick Bateman (Christian Bale), um jovem magnata de Wall Street – inteligente, erudito, bonito, atlético, rico e bem-sucedido – que possui uma vida secreta como psicopata. Ou seja, por trás de todas as características que a sociedade que o rodeia venera, há um indivíduo extremamente narcísico, egoísta, invejoso e de tal modo desumanizado, que só consegue sentir real prazer matando pessoas. O final ambíguo do filme deixa espaço para duas interpretações: tudo não passou de uma ilusão criada em sua cabeça para fugir do mundo fútil em que vivia; ou ele de fato cometeu assassinatos, todavia, como era um sujeito com uma imagem representativa da e para elite, não era interpelado e interpretado pelas pessoas como um serial killer.

Bom, não é preciso assistir ao filme para entender como ele explica a problemática levantada, embora fique a recomendação. Para a compreensão basta entender que o filme é uma crítica à sociedade de consumo e todo o jogo de aparências que ela tanto sustenta e reverencia, sendo a figura de Bateman apenas uma metáfora para materializar a crítica ao sistema. Nesse sentido, o que se sucede é que Bateman representa uma imagem que transfigura de tal modo a sua real personalidade que pouco importa se ele é ou não um assassino, as pessoas do seu círculo jamais ousariam vê-lo dessa forma, pois, como já disse, ele possui uma carga imagética venerada pelo corpo social.

Da mesma maneira que ocorre com o Psicopata Americano, existe todo um aparato imagético em torno da figura de Eike e Bruno, que os faz possuir um valor sígnico que transcende o que são verdadeiramente. Isto é, por mais que eles tenham cometido crimes, os valores sígnicos que possuem não são compatíveis com o de delinquentes, e sim, de homens “bem-sucedidos”, seja no mundo dos esportes, seja no mundo dos negócios.

Entretanto, é bom que se perceba que os valores imagéticos não são construídos pelos próprios sujeitos, Eike, Bruno e Bateman. Eles são construídos pelas outras pessoas que os veem como sujeitos referenciais para certos protocolos determinados pelo status quo.

Essa estruturação que se dá de modo paralelo ao verdadeiro valor dos indivíduos leva ao que Jean Baudrillard chama de “realismo fotográfico”, no qual por meio de vários atributos o sujeito passa a adquirir um valor sígnico, que não condiz necessariamente com a realidade, mas com uma hiper-realidade, que é sustentada muito mais pelo observador e produtor dos signos do que pelo próprio indivíduo.

Diante disso, Eike e Bruno dificilmente serão vistos como um criminoso qualquer, aquele que furta o mercadinho da esquina e, portanto, merece ser linchado até a morte; já que estão blindados, protegidos, por uma imagem que está longe de estar em consonância com o real. E, assim, são alvos de abordagens, autógrafos e selfies por pessoas que constantemente os ressignificam, contemplando a sociedade do espetáculo, em que uma imagem vale mais do que qualquer conteúdo.

E como também vivemos em uma sociedade confessional, para lembrar Bauman, faz-se necessário que as fotos sejam postadas para angariar curtidas, comentários e, consequentemente, haja a ressignificação de valores da imagem e do próprio sujeito, que neste momento passam a ser um só, mergulhado na realidade fotográfica.

Sendo assim, a grande questão que surge do exposto é o perigo de estarmos tão imersos em uma “realidade” fantasiosa, criada pela estruturação de valores que advêm de signos determinados pela ordem vigente, que perdemos a capacidade de confrontar o real, como se estivéssemos em um delírio perene em que nada é o que aparenta ser. E imersos nesse espetáculo de imagens, o “ser” deixou de possuir qualquer valor, pois a única verdade, a que realmente importa, é a que cabe dentro de uma foto postada e reverenciada no Instagram.

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Erick Morais
Poderia dizer o que faço, onde moro; mas, sinceramente, acho clichê. Meus textos falam muito mais sobre mim. O que posso dizer é que sou um cara simples. Talvez até demais. Um sonhador? Com certeza. Mais que isso. Um caso perdido de poesia ou apenas um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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