“Por que as pessoas só enxergam a vilania dos homens públicos das outras correntes políticas?” Esta é uma das perguntas de um artigo (Folha, 20/2017) do advogado criminal Luís Francisco Carvalho Filho. O calor da política é sempre mais popular que a inverno da filosofia. A questão de Carvalho Filho, que ele não responde, só pode ser abordada seriamente pela filosofia. A própria política não possui resposta interessante sobre esse assunto.

Em termos bem populares e nacionais, que é onde o artigo se fixa, o que se quer saber é por qual razão gente informada, escolarizada, pode achar que uma denúncia contra Aécio vale, mas não vale uma contra Lula, e vice versa, diante de semelhantes circunstâncias probatórias. Primeiro: há uma gravação de Lula com Dilma, sendo que esta fala para Lula que já o nomeou ministro e então, com o papel na mão, ele não pode ser preso. Segundo: há uma gravação de delator mostrando que Aécio pede dinheiro para um empresário investigado pela Lava Jato. Qualquer pessoa racional espera que outra pessoa racional coloque ambos sob suspeição e investigação. Mas o interessante é ver que muitos bem informados, inclusive professores universitários, tendem a fechar os olhos para uma das duas e seguir em frente com a sua preferência partidária ou política ou por “homens de bem”, no caso, os seus ídolos. Por que isso ocorre?

O campo popular finge que explica isso, mas apenas usa frases que são pseudo-explicações. “Ah, o que seria do amarelo se todos gostassem do vermelho!” “Ah, a paixão cega a razão!”. O campo filósofo muda a questão. O que está em jogo é a razão pela qual não podemo surfar em águas que não apontam no horizonte um porto seguro, uma praia, ou um barco. Ou seja, não podemos acusar alguém de estar errado ou falseando ou mentindo se não tivermos, junto de nós, a ideia de que temos o acerto, o correto e a verdade. Não conseguimos subir uma escada para o desconhecido e no último degrau jogarmos fora a escada. Mesmo Galileu, que falou em relatividade, o fez a partir de dois referenciais capazes de serem mensuráveis um em relação ao outro. Há algo de fixo no mundo da mudança. Um ponto ou outro tem de ser fixo. Se os dois são móveis, então a mensuração entre os dois deve ter um padrão. Sem isso, não ousamos pensar. Há algum desejo de um ponto metafísico no qual se agarrar: o mundo das formas de Platão ou a alavanca para erguer o globo, de Descartes.

O que estou dizendo é que a filosofia foi inventada por conta desse desejo metafísico dos homens de cumprirem o seu destino de terem sido gerados em direção à terra firme. Filogeneticamente viemos da água para a terra, do líquido para o que é pedra, e ontogeneticamente também. Do mar para a terra, do útero para o braço materno. Peter Sloterdijk escreveu algo mais ou menos assim: “que não fale do homem que não quiser falar de pedra”. Donald Davidson escreveu algo mais ou menos assim: o conceito de verdade é intuitivo. As duas frases dizem o seguinte o mesmo: temos tudo, na nossa vida, para acreditar que há um porto seguro. Somos seres vocacionados para a metafísica.

Para romper com esse nosso pendor voltado para a metafísica, teríamos de não ser os que vieram e sempre vem para a terra, para o barro adamítico. Talvez se fôssemos como animais marinhos pouco autônomos, que se deixam levar pelas correntezas, como pensou Nietzsche certa vez, não tivéssemos nenhuma metafísica na cabeça e, então, saberíamos levar a sério certas acusações contra um político e ao mesmo tempo levar a sério certas acusações contra outro, seu adversário. Ou seja, teríamos a capacidade de viver como que levados pelo líquido amniótico para lá e para cá, gostosamente. Mas uma boa parte de nós não curte o tanto que deveria curtir o líquido amniótico, e pior, sai para fora do útero e não encontra seus substitutos: a gênio ou anjo que repete os sons uterinos, o braço da mãe que acolhe e embala, a fala da mãe que diz, mentindo, “que tudo vai ficar bem” ao ouvir um choro. Nascem assim pessoas que, tendo tudo isso, são menos propensas ao desespero da busca metafísica pelo porto seguro. São pessoas que não experimentaram a queda no vazio psíquico ou psico-físico. Outros, os abruptamente colocados no mundo da pedra, se vêem no desespero e acabam por amar a pedra. Estes estarão sempre pensando no conceito de verdade como um porto seguro. Abraçam a metafísica. Querem um ponto metafísico. Essas pessoas, para adotar a crítica a alguém, precisam acreditar que estão montados na verdade eterna. Não saberiam jamais andar pelo espaço sideral, em campo aberto, sem imaginar que a nave-mãe jamais existiu.

Podemos estudar metafísica, mas se nos apaixonamos por um ponto metafísico como sendo algo que nos acalma, que se faz necessário, deveríamos saber mais de nossa vida uterina, ainda que, de certo modo, todos nós tenhamos, filogeneticamente, se comprometido com a terra, a pedra, uma vez que perdemos nossas barbatanas e adquirimos pernas.

O homem pode nadar e voar, mas não sabe fazê-lo se não acreditar que pode aportar e pousar, e que quando fizer isso, estará seguro, num lugar sem mutação. Em algum lugar há uma Terra, ou um candidato que precisa, ainda que na imaginação, ser o depositário do que não muda. Alguns usam para isso deuses, outros usam políticos. Restolhos de pontos metafísicos. Caricaturas metafisicas criadas pela insegurança.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 21/05/2017

Post scriptum: Peixe não é metafísico. É BOBAGEM achar que se fôssemos peixes seríamos metafísicos. Somos metafísicos porque procuramos um porto seguro, e isso por termos saído da água e vindo para a terra, para a pedra, para o sólido. Na página 54 de “Para ler Sloterdijk”, citei-o parafraseando Wittgenstein: ‘Quem não puder falar de pedras, que se cale sobre o homem’

TEXTO DEPaulo Ghiraldelli
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