François, Duque de La Rochefoucauld, foi um importante intelectual francês do século XVII. Tendo sido um dos introdutores do gênero de máximas e epigramas (gênero no qual sua principal obra, Máximas e Reflexões Morais, foi escrita), influenciou profundamente filósofos como Friedrich Nietzsche e Émil Cioran. O texto abaixo foi extraído da obra mencionada.

DO AMOR E DO MAR

Aqueles que quiseram nos representar o amor e seus caprichos o compararam de tantas maneiras ao mar que é difícil acrescentar o que quer que seja ao que disseram.

Fizeram-nos ver que um e outro têm inconstância e infidelidade iguais, que seus bens e seus males são inumeráveis, que as navegações mais felizes ficam expostas a mil perigos, que as tempestades e os escolhos sempre devem ser temidos e que, muitas vezes, mesmo no porto se naufraga.

Mas, ao nos exprimirem tantas esperanças e tantos temores, não nos mostraram de modo suficiente, me parece, a relação que há de um amor desgastado, inerte e em fase final com essas longas bonanças, com essas calmarias aborrecedoras que são encontradas no percurso: cansados da longa viagem, desejamos que chegue ao fim.

Avistamos a terra, mas o vento não sopra para chegar a ela; vemo-nos expostos às intempéries das estações. As doenças e a apatia que nos impedem de agir. A água e os víveres faltam ou mudam de gosto. Recorremos inutilmente a um socorro estranho. Tentamos pescar, mas só conseguimos alguns poucos peixes sem deles tirar alívio ou alimento.

Estamos cansados de tudo o que vemos, ficamos sempre com nossos próprios pensamentos e estamos sempre aborrecidos. Vivemos ainda, mas lamentamos viver. Esperamos por desejos que nos levem a sair de um estado penoso e apático, mas os que conseguimos ter são fracos e inúteis.

Texto extraído do livro Máximas e Reflexões Morais

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