Nos últimos tempos, temos observado no Brasil o erguimento dos holofotes sobre indivíduos que se dedicam ao pensamento, de tal maneira que eles chegaram a receber a identificação de “filósofos pop stars”. A partir disso, muito se questiona acerca da validade, da coerência e do conhecimento desses pensadores (Karnal, Cortella, Pondé, Clóvis, etc.), e das suas reais intenções quando recebem da mídia o direito à fala, levando-nos, inclusive, a problematizar o seguinte ponto: a quem pertence o conhecimento? Ou melhor: pertence a alguém (ou grupo) o monopólio do conhecimento?

Nestas terras tupiniquins, historicamente o ato de ler, educar-se e pensar criticamente sempre foi restrito a uma parcela ínfima da população, que gozava de condições materiais e sociais para tanto. Entretanto, até mesmo para esses indivíduos, havia restrições sobre o que ler ou estudar, afinal, o conhecimento “produzido” deveria estar a serviço da manutenção da ordem estabelecida e não ser um fator de desestabilização da mesma.

Ainda que a maior parte da população continue cerceada do seu direito à educação, constitucionalmente previsto, houve alguns avanços, até porque vivemos, pelo menos no plano teórico, em um Estado Democrático de Direito, o que não permite que as condições de outrora sejam aplicadas da mesma forma (outras formas mais dissimiladas e “invisíveis” continuam existindo).

Sendo assim, hoje possuímos condições maiores (mas longe de ser a ideal) de elevar o pensamento e construir o conhecimento em todos os espaços sociais. Dada essas transformações, parece-me natural que alguns indivíduos saiam dos seus casulos acadêmicos e adentrem no corpo social, a fim de discutir, problematizar, elucidar e polemizar os diversos assuntos peculiares a uma sociedade complexa como a nossa.

No entanto, algo curioso acontece, muitos indivíduos, dotados de um grau maior de conhecimento, rechaçam esses indivíduos enquanto pensadores e sujeitos capazes de contribuir para o desenvolvimento do pensamento. Ao que parece, certos saberes e conceitos só podem ser ensinados e discutidos na academia e dentro de certos dogmas linguísticos, o que, automaticamente, desqualifica todo saber que é colocado de modo prosaico e acessível aos sujeitos normais que compõem o tecido social.

Antes de prosseguir, é bom que se diga que não se trata de concordar ou não com os nossos “filósofos”, afinal, o pensamento é livre; e sim, de tentar compreender o que se esconde por trás de determinadas “críticas”, ajudando-nos a esclarecer o questionamento lançado no início do texto.

Posto isso, podemos concluir que existe um monopólio sobre o conhecimento, a qual se manifesta tanto no campo histórico-social, em que apenas um punhado de pessoas receberam/recebem o “privilégio” do acesso à educação e ao conhecimento; quanto no campo academicista, que cria constantemente barreiras e empecilhos para que seja erigido um canal comunicativo entre a sociedade e a academia.

Dessa forma, quando sujeitos saem da universidade e adentram na mídia (quebrando o monopólio), sobretudo, com discursos e falas mais compreensíveis, além de se dedicarem a uma produção intelectual que não esteja restrita aos “doutos”, ocorre o rompimento ou até mesmo um colapso na estrutura dogmática do saber, pois em lugar de uma barreira, cria-se uma ponte que permite a caminhada das mais diversas pessoas no campo do pensar.

Essas pontes tornam-se, então, alvos de muitas “críticas”, que entendem os “filósofos” como impostores ou sujeitos que passam conhecimento falso. Na história da humanidade, muitos daqueles que tentaram construir o seu pensamento voltado para a maioria e não para uma minoria foram chamados de impostores. Mas comparações à parte, é evidente que eles não possuem a verdade absoluta, tampouco, devem ser idolatrados como muitos fazem. Como também, é evidente que eles procuram aproveitar o momento favorável (e raro) que se formou, o que não é nenhum crime, acima de tudo, quando sabemos que o pensamento é amplamente desvalorizado no Brasil.

O que eles estão fazendo nada mais é do que tornar o pensamento, a produção de conhecimento, o pensar filosófico mais apreensível e próximo das pessoas e isso é extremamente positivo. Concordar ou não com eles é outra história, como disse, mas é preciso entender que da mesma forma que o conhecimento não deve ficar restrito a uma elite, também não deve ficar preso aos muros da academia.

Não é necessário estar preso a certos dogmáticos linguísticos e técnicos para poder falar e discutir determinado assunto ou conceito e a partir disso estabelecer um espaço de reflexão. Quem assim pensa, mesmo que involuntariamente, está contribuindo para que o conhecimento continue sendo tratado como um monopólio ou privilégio, o que não deve ocorrer, pois como bem disse Bertolt Brecht, o conhecimento pertence à humanidade e não pode ser privatizado, seja no sentido material, seja no sentido formal.

Assim, torna-se imprescindível a presença de indivíduos que estimulem às pessoas, dentro ou fora dos muros das universidades, a reflexão e a construção do seu próprio conhecimento. E isso não se restringe aos referidos filósofos, mas a todos aqueles que possuem a capacidade de lançar frestas de luz sobre as penumbras da ignorância, porque a cada vela de saber que se acende, os nossos olhos passam a melhor enxergar a escuridão que nos apavora, e lembrando Isaac Asimov: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”.

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Erick Morais
Poderia dizer o que faço, onde moro; mas, sinceramente, acho clichê. Meus textos falam muito mais sobre mim. O que posso dizer é que sou um cara simples. Talvez até demais. Um sonhador? Com certeza. Mais que isso. Um caso perdido de poesia ou apenas um menestrel caminhando pelas ruas solitárias da vida.

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