Não obstantes a profunda crise política e a recessão econômica nas quais nos encontramos, mesmo diante dos hercúleos esforços despendidos pelo governo Temer no sentido de minimizar o valor do ensino de disciplinas do campo das humanidades no ensino médio, tem crescido vertiginosamente entre os jovens o interesse por Filosofia.

A grande popularização do pensamento de alguns intelectuais brasileiros contemporâneos comprova a tese. Sempre tivemos intelectuais que pensaram a realidade e os problemas do nosso povo, mas nunca foram tão festejados quanto os atuais. Estamos diante de um fenômeno novo, cujo surgimento tem certamente a ver com o acesso facilitado pela internet à informação e ao conhecimento, mas não só.

Mario Sergio Cortella, Clóvis de Barros e Leandro Karnal são alguns dos pensadores que tem granjeado a simpatia dos brasileiros. Com milhares de seguidores nas suas contas pessoais do Facebook, toda semana algum vídeo ou texto novo expondo suas reflexões viraliza na rede. Os três professores universitários são oriundos de diferentes regiões do país, possuem formações acadêmicas distintas, mas os seus discursos guardam várias similaridades.

Do ponto de vista estritamente formal, uma característica em comum entre eles sobressai: os três falam em períodos curtos. “Períodos” do ponto de vista sintático mesmo. Volta e meia, enquanto falam, salta uma máxima, um aforisma que sintetiza toda a reflexão. Esse recurso linguístico confere aos seus discursos uma velocidade perfeitamente adequada ao perfil do jovem de hoje, forjado nos moldes da “modernidade líquida”, caracterizado pela brevidade das suas relações e pela sua aversão a “grandes narrativas”.

Ao mesmo tempo os três filósofos se ocupam em larga medida da reflexão sobre os problemas éticos que essa “liquidez” nos tem imposto. É como se, para criticar o mundo, em um diálogo com o mundo, tenham optado (sabiamente) por fazê-lo no idioma do mundo. Isso explica também a não projeção de outros intelectuais, que ainda preferem expor suas posições teóricas em línguas que hoje só se fala nas distantes ilhas universitárias do país.

Os filósofos popstars são uma resposta à necessidade cada vez mais sentida de compreendermos “o que caralhos” está acontecendo com o mundo. Sua projeção é ao mesmo tempo produto do declínio da nossa sociedade e sinal da vontade de encontrarmos saída, de encontrarmos respostas para as contradições nas quais estamos imersos. Nas palavras de Nietzsche, “todos os grandes tempos da cultura são tempos de decadência política”. Torçamos para que a filosofia nos municie realmente do instrumental de que necessitamos para transformar a realidade do nosso país.

TEXTO DEAndré Luiz Ribeiro
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