Será que existe uma fórmula, uma receita, um roteiro para uma vida boa e feliz? Pela quantidade de livros, vídeos, sites de “gurus” que existem por aí, aparentemente existem alguns passos ou hábitos que, se seguidos à risca, garantem sucesso, amor, dinheiro, felicidade, saúde, etc. A pergunta é: por que, então, há tanta gente infeliz e insatisfeita no mundo?

Quando tenho contato com esse tipo de receita ou lista de coisas a se fazer para obter algum tipo de sucesso, noto que há até uma boa intenção por trás disso (além da óbvia, que é gerar dinheiro aos tais gurus) e que, de fato, há dicas interessantes e até mesmo promissoras, não para garantir felicidade e sucesso, mas para gerar algum tipo de melhora e crescimento na qualidade de vida das pessoas. Parece-me que as tais “fórmulas” podem até funcionar em determinados casos, mas elas carecem de pensamento complexo e base – coisa que encontramos na filosofia.

Pensando sobre isso, percebi que o estudo da filosofia me deu ferramentas para buscar, na complexidade da vida, caminhos para uma vida boa. Muitos filósofos contribuíram e contribuem nessa busca, mas Nietzsche foi, de longe, o filósofo que mais me influenciou e influencia até hoje. Quem já estudou e leu Nietzsche sabe que ele é o filósofo da desconstrução. Gosto do casamento de dois conceitos importantes da filosofia de Nietzsche: Amor Fati e Eterno Retorno.

O Amor Fati foi o primeiro conceito com o qual tomei contato. Amor Fati é amor pela vida como ela é. Esse conceito de Nietzsche veio para combater principalmente a filosofia idealista de Platão. Esse, que foi um grande pensador, acho que o mais influente pensador da filosofia ocidental, nos apresenta a ideia de que existe o mundo sensível – esse que percebemos com os nossos sentidos – e o mundo inteligível – o mundo ideal, que só acessamos através do pensamento racional, das ideias. Para Platão, o mundo perfeito é o ideal, onde está a verdadeira essência das coisas, nossa alma, e o mundo em que vivemos, o do corpo, é um rascunho, uma cópia mal feita do ideal. Tudo o que sentimos com o corpo não pode ser confiável, já que os sentidos sempre nos pregam peças!

Esse pensamento de Platão influencia até hoje o pensamento ocidental. A imensa maioria das pessoas vive sua vida sempre em busca de um ideal, uma meta, um objetivo que está lá na frente – nunca no presente. A vida ideal nunca é a que estou vivendo. Estou vivendo na segunda-feira pensando no final de semana, no final de semana pensando na viagem de férias, a viagem de férias pensando na volta para casa, e assim por diante. Esperamos que as pessoas sejam diferentes do que são, sonhamos com o marido ideal, com o filho ideal, com o chefe ideal.

Para Nietzsche, esse é um grande erro. O Amor Fati diz respeito a isso, ou seja, amar a vida, as pessoas, o mundo, como eles são. Porque se você ama um ideal – de marido, por exemplo -, você sempre, invariavelmente, estará frustrado – o que não é uma vida boa. Você ama um marido que lhe manda flores e seu marido não manda; você, então, ama um ideal. Quando eu tomei conhecimento desse conceito pela primeira vez, soou para mim como um conformismo.

Só fui entender o conceito ao juntar com o outro conceito de Nietzsche: o do eterno retorno. Esse conceito diz mais ou menos o seguinte: imagine que você seja condenado a viver sua vida exatamente como ela é, sem mudar nada, por toda a eternidade. Imagine momentos muito desagradáveis que você viveu, ter que reviver, eternamente. Então, a ideia é a seguinte: viva de tal maneira que deseje repetir infinitas vezes. Encha sua vida de momentos alegres de forma que cada momento seja tão bom que mereça a eternidade. Viva momentos que passam sem você se dar conta do tempo, que o tempo “voa”, que você consegue estar realmente presente nele, sem precisar “fugir” mentalmente para o futuro – ou o passado. Até porque, o momento presente é, de fato, eterno. Nunca saímos dele. Estamos sempre “presos” ao presente. Dessa forma, tornar o presente um “lugar” legal é uma boa pedida.

Então, o Amor Fati faz mais sentido: ame sua vida como ela é e, para isso, torne sua vida como quer que ela seja. E Nietzsche deixa claro que isso tem a ver com a forma como VOCÊ quer que ela seja. Só você sabe o que torna um momento digno de eternidade para você. Esses momentos geralmente são do cotidiano, do dia a dia. Não se trata de grandes feitos e grandes alegrias. Essas são exceção. Trata-se daquilo que realmente compõe nossa vida: o dia a dia comum, na simplicidade das coisas, porque não há como nossa vida ser somente composta de prêmios, casamentos, nascimentos, etc.

Mas, bom, nos deparamos aqui com dois problemas. Primeiro, como vou saber o que me alegra? Segundo, eu não tenho controle de tudo e não posso moldar minha vida como bem entendo.

Para a primeira questão, foi o filósofo Spinoza que, a meu ver, forneceu um conceito muito interessante sobre isso. Spinoza dá um conceito de amor que nos ajuda a descobrir, afinal, o que nos alegra. Spinoza nos diz o seguinte: todos nós temos uma energia vital, uma potência, e essa oscila ao longo do dia. Acordamos com uma quantidade de energia baixa e, ao longo do dia, vamos sendo potencializados ou não, dependendo de como o mundo nos afeta. Então, existem coisas no mundo que têm a capacidade de aumentar essa nossa potência, coisas que nos deixam animados, energizados, para cima. E há coisas que, ao contrário, reduzem nossa potência, nossa energia.

Por exemplo, você pode estar com um nível baixo de energia e receber uma notícia boa que estava esperando. Sua potência aumenta, você se alegra. Em seguida, você sai de casa e batem no seu carro, gerando prejuízos e estresses. Sua potência imediatamente diminui muito. Nosso dia é geralmente caracterizado pela oscilação de potência. Partindo desse princípio, Spinoza conclui que amamos uma coisa (ou pessoa) quando essa tem a capacidade de aumentar nossa potência. Então, uma pessoa como eu que gosta muito de café, terá um aumento de potência toda vez que beber café. Assim, para Spinoza, eu amo café.

No entanto, a forma como o mundo nos afeta não depende de nossa vontade racional. Para Spinoza, você ama alguma coisa (ou alguém) porque essa aumenta sua potência e não o contrário. Assim, a ideia de que eu posso querer racionalmente amar algo e que, por isso, esse algo vai aumentar minha potência não funciona. Ninguém ama porque quer racionalmente. Nós amamos aquilo que nos alegra, nos potencializa, nos faz sorrir, nos torna mais potentes. E isso é individual, particular. Não há receitas generalizadas, que funcionam para todos. Tentar encaixar sua vida em fórmulas externas de felicidade é o caminho certo para frustrações.

Assim, se eu quiser, por exemplo, seguir a dica do guru que me diz que se eu acordar todo dia às 5 da manhã e sair para correr terei uma vida de melhor qualidade, estou presumindo que posso, apenas por querer, obter um aumento de potência baseado nesse hábito. Isso pode, de fato, funcionar para o guru, mas definitivamente não funciona para mim. Eu não gosto de acordar tão cedo, nem de correr, nem tampouco de fazer atividade física de manhã. Para mim, isso leva minha potência para o nível mínimo. Não funciona. Para que eu faça uma atividade física que realmente me torne mais potente, mais alegre, preciso encontrar aquilo que me afeta dessa forma.

Após descobrirmos o que nos alegra, o que nos torna pessoas mais potentes e energizadas, caímos no segundo problema: não controlo tudo. Muitas coisas que acontecem comigo eu jamais desejaria reviver infinitas vezes, mas não tenho alternativa, pois não dependem de mim. Aí, quem vem em nossa ajuda é Maquiavel. Ele dizia que as coisas da nossa vida dividem-se em, metade, coisas sobre as quais não temos controle, que ele chamou de Fortuna (em alusão à deusa Fortuna, deusa da sorte da mitologia romana). Já a outra metade, são coisas que dependem das nossas atitudes, da forma como lidamos com os afetos que o mundo nos proporciona, com a Fortuna. Maquiavel chamava isso de virtù, ou seja, para ele, a pessoa com virtudes (não virtudes morais, mas sim, a pessoa bem sucedida) seria aquela que sabe lidar da melhor forma possível com os acasos da vida, combinando seus desejos e afetos com o pensamento racional, visando obter o melhor resultado possível, avaliando as situações cuidadosamente e adequando suas ações a elas.

Isso vale para momentos em que parece que “queremos” sofrer. Por exemplo, uma vez eu estava sofrendo a fatídica dor de amor e ficava insistentemente entrando no aplicativo de mensagem para ver se a pessoa de quem eu estava esperando retorno tinha lido e respondido. Entrava, sofria, reclamava. Meu filho, no alto de seus 10 anos de idade, me disse: “mãe, por que você fica entrando o tempo todo para ver o que já sabe? Você está sofrendo porque quer. Fale isso em voz alta para você ver como soa estranho”. Às vezes eu acho que todas as crianças nascem filósofas e a educação e a sociedade é que as transformam em seres incapacitados para pensar. Mas esse é um ótimo exemplo de falta de virtù. Eu estava sofrendo a dor de amor, mas estava cutucando a ferida insistentemente, ao invés de tentar lidar com a situação da melhor forma possível. Alimentar uma dor propositalmente não é o caminho para uma vida boa.

Então, agora chegamos à tão sonhada fórmula da felicidade? É só fazer um lista de coisas que me alegram contra coisas que me entristecem e tentar adequar isso aos acasos da vida? Certo? Errado. Lá vem Nietzsche nos puxar o tapete de novo… Isso não é possível, porque nós somos seres em eterna transformação. A pessoa que escreve esse parágrafo já não é mais a que começou a escrever esse texto. Então, o que me alegra hoje pode não me alegrar amanhã. O mundo nos afeta o tempo todo. Às vezes, uma música, um texto, uma pessoa, um conceito nos transforma em um piscar de olhos. E o que antes era gerador de potência, agora não é mais.

Quem nunca comeu algo e amou desesperadamente, ficou sonhando em comer de novo e, quando teve a chance, teve aquela decepção, já que não foi como na primeira vez. Pudera, na primeira vez você era outra pessoa.

Então, concluímos que não é nada simples ter uma vida boa. É um projeto de vida, é o caminho que vai sendo feito ao caminhar. Não há fórmulas, não há dicas infalíveis. É necessário se conhecer muito, sempre, o tempo todo. É necessário avaliar sua vida o tempo todo. É necessário ter coragem para ter virtù, serenidade para aceitar a Fortuna, é necessário desconstruir conceitos muito arraigados em nossa mente de idealismos platônicos, é necessário aprender a viver. Todos os dias.

TEXTO DEJuliana Santin
FONTEGenialmente Louco
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