“Chama a atenção o fato de que a reflexão e o projeto da intelligentsia brasileira, desde que começou a pensar num possível fim da escravidão, estiveram vinculados à proposta de importar mão-de-obra europeia”. Sabemos que num período de menos de 25 anos (de 1890 a 1914) chegaram 2,5 milhões de europeus ao Brasil; quase um milhão deles (987.000) tinha suas viagens de navio financiadas pelo Estado.
Um documento, publicado pela Diretoria Geral de Estatística e assinado por Oliveira Vianna, avalia o resultado do censo de 1920 da seguinte maneira: [constata-se] ―uma tendência que está se tornando mais visível e definida: (…) [a] progressiva arianização de nossos grupos regionais. “Ou seja, o coeficiente da raça branca está se tornando cada vez maior em nossa população.” — (HOFBAUER, 2011, p.2)(HOFBAUER, Andreas. Branqueamento e democracia racial: sobre as entranhas do racismo no Brasil. 2011)

 

Pelo recorte acima, tirado do livro de Andreas Hofbauer, concluímos que não é de hoje o desejo de alguns que uma população predominantemente branca prevaleça no Brasil. Essas tentativas falharam e estamos nós aqui, um povo predominantemente mestiçado. Alguns não dão a mínima para qual cor (ou cores) tinge os brasileiros, mas outros não se conformam que sejamos de vários tons. Somos um povo bonito, o mundo todo diz isso, e não acredito que esteja só querendo nos agradar com elogios bobos. O fato é que, para alguns inconformados com a mestiçagem, ser “ariano” poderia significar ser superior, ser mais aceito, se livrar de certas discriminações e preconceitos. Bom, partindo desse preceito, poderíamos afirmar que o contrário também é válido, ou seja, colore todo mundo, faz uma misturada e ficamos todos iguais. Pronto, ninguém poderia mais discriminar ninguém, o mundo seria um imenso Brasil espalhado pelo globo e seria legal ver um chinês de rasta.

Mas não se trata só da questão estética, da beleza física; trata-se mesmo é do conceito de superioridade que desde sempre está, ainda que ocultamente, latente no íntimo de alguns muitos. E é o que sugere uma reportagem do The All Street Journal, assinada por Samantha Pearson, que apresenta o crescimento da importação de sêmen dos Estados Unidos por brasileiras.

“Com olhos claros, cabelos loiros e algumas sardas no rosto, o doador número 9611 é um dos mais requisitados por mulheres ricas do Brasil que estão importando o DNA de jovens norte-americanos em números sem precedentes”

Samantha se baseia em dados da Anvisa para afirmar que a importação de esperma gringo cresceu assustadoramente 3000% de 2011 para cá. As clientes importadoras são mulheres ricas solteiras e casais de lésbicas que dão preferência a doadores com “pele clara” e “olhos azuis”.

A reportagem ainda aborda a política de “branqueamento” que já citamos no início dessa matéria, sugerindo que o nosso “racismo persistente” explica o interesse por esses espermas de gente ariana.

Além de querer branquear os descendentes, o complexo de vira-latas também é uma razão para a importação: os brasileiros que compram esperma gringo dizem “não confiar” no “produto nacional”, como se estivessem tratando de um produto eletrônico ou tênis de corrida. Segundo uma mãe que importou esperma dos EUA, enquanto aqui as informações sobre o doador seriam precárias, ela conseguiu coletar 29 páginas sobre o doador norte-americano.

“O Brasil compra quase todo o esperma importado de doadores caracterizados como caucasianos. Quase um terço dos espécimes é de doadores loiros e 52% de homens com olhos azuis. O país também aparece como um dos mercados que mais crescem em importação de sêmen nos últimos anos. Mais de 500 tubos de sêmen congelado em nitrogênio líquido chegaram ao Brasil no ano passado, contra 16 em 2011”, diz a reportagem. “Em 2016, casais heterossexuais compraram 41% do esperma importado, mulheres solteiras, 36% e casais lésbicos, 21%, mas a demanda está crescendo entre os dois últimos grupos.”

 

Leia a reportagem completa, em inglês, aqui.

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