Por Octavio Caruso
Vivemos tempos muito complicados, uma genuína “Crise de Seldon” (profético Isaac Asimov em seu livro “A Fundação”) que definirá o futuro da sociedade. Linchamentos virtuais são promovidos com conhecimento apenas de uma manchete da notícia. Situação deprimente que foi alimentada por vários anos, como que em um processo irresponsável e agressivo de mediocrização popular. Aquele senhor de fraque e cartola que aplaudia no Teatro Municipal as obras de Schubert, hoje vê seus filhos e netos indo até o chão ao som do lastimável funk carioca, que é a pura expressão da ausência de cultura.

Aquelas músicas populares de letras tão lindas de outrora, hoje são apenas refrões simplistas e sexualizados, a comunidade carente que outrora produziu Cartola, romantismo elegante e consciência social, hoje, produz a grotesca apologia ao estupro. O sertanejo, que antes era de raiz e retratava a realidade do homem do campo, hoje é engrenagem no sistema de máfias que controlam a indústria musical, especialmente fora do eixo RJ-SP. Até mesmo o hip-hop, que antes falava tão realisticamente sobre as mazelas do país, hoje foi diluído e parece servir apenas para exultar cafetões e mulheres fúteis. Parafraseando Edu Lobo, o problema hoje em dia não parece mais ser: “Quem me dera agora eu tivesse a viola para cantar”, mas, sim: Alguém escutaria?

Estamos em pleno 2018 e nossos jovens desaprenderam a escrever. O mundo moderno oferece instrumentos: Facebook, Twitter, smartphones cuja função menos importante é aquela inventada por Graham Bell, muitas opções de canais de televisão visualizados em telas gigantescas em 3D, “máxima megalomania, porém, monocórdia mesmice” (parafraseando o genial Chico Anysio). O resultado: Redes sociais desperdiçadas com notícias falsas, correntes tolas, ofensas indiretas e o seu exato oposto: o egocentrismo, o apreço pelo registro ao invés da valorização da experiência vivida, o “parecer ser”, ao invés do “ser”.

As pessoas dão valor aos TT´s no Twitter, sem se importar que eles normalmente envolvam temas completamente irrelevantes. Até mesmo o futebol, esporte tão amado na nação, hoje sofre com a selvageria dos torcedores que saem de casa com o instinto de um assassino. A cultura da massificação ordinária infelizmente sobrepujou a elegância do refinamento pessoal. Os quinze minutos de fama de um vídeo de dez segundos em que um garoto mostra seu mamilo recebe enorme atenção e repercute internacionalmente, enquanto vídeos sérios que tratam de temas importantes são esnobados. A carência do ser humano nunca se mostrou tão cruelmente perceptível como hoje.

O único elemento que verdadeiramente tem o potencial para inspirar modificações estruturais no ser humano é a arte: a literatura, o cinema, a música, o interesse constante em aprimorar sua cultura. A delicadeza e a elegância são mais fortes que a espada do ódio. E, por mais problemas que nossa nação esteja acumulando, a culpa não reside nos ombros do sistema, do governo, do outro. O povo, o conjunto de indivíduos, é o responsável pelo sistema, que apenas reflete atualmente em seu vidro embaçado o completo desinteresse, a preguiça intelectual de adultos psicologicamente infantilizados que, com raras exceções, aceitam desperdiçar suas vidas em profissões que não suportam, perseguindo cegamente rituais sociais desgastados e incansavelmente buscando a aprovação enquanto produto padronizado de uma indústria falida. O amor e o genuíno interesse de um adulto que compreende a importância da parentalidade responsável, a nobreza de um jovem que valoriza mais a leitura de um livro, a sorte da criança que é estimulada a colocar sua criatividade em ação, ao invés de se aprisionar nas telinhas dos tablets. Esses indivíduos podem modificar o sistema em longo prazo.

A revolução não será televisionada, ela ocorre no silêncio do quarto de um indivíduo que, contra todas as probabilidades e sem estímulo algum do sistema, decide ser alguém melhor. E o único combustível, a inspiração mais eficiente para esse tipo de mudança estrutural reside na cultura, em todas as suas vertentes. Agora precisamos que o ser humano dê o próximo passo em sua evolução.

Octavio Caruso é escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema).

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