Filmes e Séries

Esse filme na Netflix está fazendo adultos desabar em lágrimas; já prepara o psicológico antes de dar o play

Tem filme que a gente assiste para passar o tempo e tem filme que parece puxar a gente pelo colarinho e dizer: “senta aqui e sente isso comigo”. Milagre na Cela 7 entra nesse segundo grupo sem fazer muita cerimônia.

O longa turco de 2019 chegou quieto na Netflix e, em pouco tempo, virou aquele clássico “você já viu esse filme?” em grupos de amigos, redes sociais e listas de produções que fazem chorar até quem jura que não chora.

Dirigido por Mehmet Ada Öztekin, o filme é um remake de um sucesso sul-coreano de 2013, mas com ajustes importantes no tom, nos personagens e no contexto político da Turquia dos anos 1980.

A história acompanha Memo (Aras Bulut İynemli), um pastor de ovelhas com deficiência intelectual que vive com a filha Ova (Nisa Sofiya Aksongur) e a avó em um vilarejo à beira do mar Egeu.

A rotina é simples e afetiva, até que uma tragédia envolvendo a filha de um poderoso comandante do exército cai sobre a família como uma sentença: Memo é acusado de assassinato e condenado à morte, sem chance real de se defender.

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O roteiro não se preocupa em ser contido na emoção. Desde o começo, o vínculo entre pai e filha é construído com pequenas cenas de carinho, códigos entre os dois e uma inocência que contrasta de forma agressiva com o peso do sistema judicial e com o ambiente da prisão.

Quando Memo vai parar na cela 7, ele encontra detentos que, a princípio, o rejeitam e o agridem, mas, aos poucos, começam a perceber que aquele homem funciona em outra frequência, que seu comportamento não combina com a imagem de um assassino frio.

Esse movimento de rejeição, desconfiança e, depois, proteção é um dos pontos mais fortes do filme.

A atuação de Aras Bulut İynemli é o centro de tudo: ele monta um personagem que oscila entre o humor involuntário e o desespero mais cru, sem cair em caricatura o tempo todo.

O olhar perdido, o jeito de falar, os gestos repetitivos e o apego quase infantil à filha constroem um retrato de vulnerabilidade que incomoda justamente porque expõe como alguém assim vira alvo fácil de um sistema disposto a resolver um caso rápido, custe o que custar.

Nisa Sofiya Aksongur, como Ova, segura cenas difíceis com uma naturalidade absurda para a idade e é responsável por vários momentos em que o espectador sente o peito apertar.

Dentro da prisão, o filme cria uma espécie de microcomunidade: cada colega de cela tem seu passado, seus arrependimentos e suas contradições, mas a presença de Ova — que acaba sendo levada escondida para ver o pai — humaniza aquele ambiente brutal.

A partir daí, a narrativa vai empilhando gestos de solidariedade improvável: presos, carcereiros e pessoas aparentemente endurecidas começam a se movimentar para tentar evitar que uma injustiça seja consumada. É melodramático? É. Mas é justamente essa escolha que faz muita gente terminar o filme aos prantos.

Em paralelo à emoção, Milagre na Cela 7 encosta em temas bem pesados: abuso de poder militar, manipulação de provas, uso da pena de morte como ferramenta de força e a dificuldade de pessoas com deficiência intelectual dentro de estruturas que não têm o menor preparo para lidar com elas.

O filme foi, inclusive, escolhido pela Turquia como representante ao Oscar de Melhor Filme Internacional, o que mostra como a obra também foi vista, lá fora, como um retrato político e social, não só como um drama que faz chorar.

Tecnicamente, o longa aposta em trilha sonora emotiva, câmera lenta em momentos-chave e cores bem marcadas para separar os momentos mais luminosos da vida em família do clima pesado da prisão e dos tribunais.

Há quem ache tudo exagerado, e faz sentido: Milagre na Cela 7 não joga no campo da sutileza, ele prefere mirar direto nos sentimentos mais básicos — amor de pai, medo de perder quem se ama, revolta diante da injustiça.

Para muita gente, isso é exatamente o que se procura quando se aperta o play na Netflix em busca de um filme que vai doer na alma.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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