Alguns dramas parecem ter sido feitos para cutucar feridas antigas. Um Limite Entre Nós é um deles.
Ambientado nos anos 1950, em um bairro operário de Pittsburgh, o filme pega a vida de um coletor de lixo e transforma o quintal de casa num campo de confronto entre frustrações, afeto e orgulho ferido.
Denzel Washington dirige e vive Troy Maxson em um dos trabalhos mais intensos da carreira — e que agora está disponível na Netflix.
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Logo de início, o roteiro coloca o espectador dentro da rotina de Troy: ele volta do trabalho cansado, bebe com o amigo Bono, conversa no quintal, conta causos da juventude e, na mesma sequência, dispara cobranças duras sobre o filho Cory.
Rose, vivida por Viola Davis, tenta organizar a casa, as contas e os humores, segurando as pontas de um marido que se acha o dono da última palavra.
O conflito central nasce do medo de Troy de ver o filho repetir os “nãos” que recebeu a vida inteira. Ex-jogador de beisebol em um tempo em que atletas negros eram barrados, ele enxerga racismo e frustração em cada oportunidade oferecida a Cory.
O garoto, por sua vez, quer agarrar uma chance no esporte e construir outra realidade. Rose fica no meio, tentando proteger o filho e, ao mesmo tempo, lidar com as cobranças do marido.
A casa, o corredor e, principalmente, o quintal se tornam extensão da cabeça de Troy. A cerca em construção, que dá nome ao original Fences, vira símbolo de limite, proteção e controle.
A direção de Denzel Washington usa esses espaços de forma calculada: quando pai e filho discutem, o enquadramento se fecha; quando Bono aparece, o quadro abre, o ar entra e o clima alivia por alguns minutos, até a próxima tensão.
A câmera raramente faz malabarismo. Washington prefere planos na altura do olhar, próximos o bastante para que pausas e respirações se tornem barulhentas. A montagem respeita o tempo de fala dos personagens, sem cortes hiperacelerados.
É o tipo de filme em que uma garrafa colocada na mesa, um boné ajustado na cabeça ou um passo em direção à cerca já dizem que a situação mudou de patamar.
Viola Davis constrói Rose com uma combinação de delicadeza e firmeza que sustenta a casa inteira. Ela observa, aguenta, reorganiza, escuta.
Quando chega o momento em que decide confrontar Troy, a cena acontece sem trilha melosa, sem artifício visual chamativo: tudo se resolve na voz trêmula, no olhar firme e na dor de quem passou anos segurando o alicerce de uma família que gira em torno do ego de um homem. Não é à toa que a atuação rendeu a ela o Oscar de coadjuvante.
Denzel Washington entrega um Troy cheio de contradições. Ele é carismático, engraçado, bom de história — e, ao mesmo tempo, cruel, controlador e incapaz de admitir que também erra.
Suas memórias da juventude aparecem o tempo todo, como um disco arranhado: servem tanto para arrancar risos quanto para impor regras e manter todos sob sua sombra. É o tipo de personagem que a plateia entende sem necessariamente gostar.
Os coadjuvantes completam o quadro. Bono funciona como espelho e freio: é o amigo que escuta, aconselha e, quando necessário, lembra promessas que Troy preferia esquecer.
Lyons, filho mais velho, músico, representa um outro caminho possível, menos preso ao emprego fixo e mais ligado a pequenos bicos e ao sonho artístico.
Já Gabriel, irmão de Troy, retorna da guerra com sequelas, trazendo para dentro daquele quintal a marca de um país que cobra caro de seus soldados e oferece pouco em troca.
O som reforça a sensação de rotina pesada: o barulho do caminhão de lixo, o arrastar de cadeiras no quintal, conversas sem música ao fundo, discussões que ecoam pela sala.
A fotografia aposta em tons terrosos, interiores apertados e pouca luz natural, reforçando a ideia de uma casa que vive em função de trabalho, boletos e regras rígidas.
Quando o céu abre e entra mais claridade, a sensação é de respiro curto, logo contido pelas mesmas fronteiras físicas e emocionais.
A origem teatral da história não é escondida. O texto de August Wilson mantém longos blocos de diálogo, que voltam com variações ao longo do filme.
Frases repetidas, expressões que retornam, gestos recorrentes — tudo funciona como marca registrada de personagens que vivem presos a hábitos e memórias.
A câmera acompanha deslocamentos pela casa e pelo quintal como se desenhasse o território de poder de Troy: quem cruza certos limites, literalmente, compra briga.
A década de 1950 aparece como contexto concreto, não como aula de História. A segregação limita trajetórias, define quem pode dirigir o caminhão ou apenas recolher o lixo, alimenta o ressentimento do protagonista e afeta, em silêncio, os sonhos do filho.
Entre uma discussão e outra, o filme ainda abre espaço para pequenos momentos de alegria, visitas, risadas e música no rádio — tudo atravessado por decisões duras que vão reorganizando a família por dentro.
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