Filosofia

Nietzsche e o Eterno Devir: “Viva o melhor possível e, só então, morra”

Do blog netmundi.org

Nietzsche nos pergunta se a vida que vivemos é a vida que escolheríamos viver eternamente. Chamou esta ideia de “eterno devir”. Zaratustra, o personagem de sua obra prima, condena a mediocridade e exorta as pessoas a serem melhores do que são, a se descobrirem e se excederem. Este Trecho do livro A Cura de Schopenhauer, de Irvin D. Yalom aborda essa ideia de Nietzsche.

Certa noite, sem conseguir dormir e precisando se animar um pouco, foi mexer nos livros da biblioteca. Não encontrou nada na sua área que pudesse, mesmo remotamente, aliviar sua situação, nada que dissesse como uma pessoa deveria viver, ou encontrar sentido nos dias de vida que ainda lhe restam. Viu então um exemplar bastante manuseado de Assim Falava Zaratustra, de Nietzsche. Conhecia bem aquele livro: décadas antes, ele o tinha estudado muito quando escrevia uma artigo sobre a grande, mas não reconhecida, influência de Nietzsche sobre Freud. Achava Zaratustra um livro corajoso, que, mais que qualquer outro, ensina como reverenciar e celebrar a vida. Sim, podia ser a resposta. Ansioso demais para ler com método, percorreu as páginas aleatoriamente e leu algumas linhas que estavam sublinhadas”.

Entendeu que as palavras de Nietzsche significavam que era preciso escolher a sua vida – ele tinha de usufruí-la em vez de ser “usufruído” por ela. Em outras palavras, tinha de amar seu destino. E, acima de tudo, havia a pergunta que Zaratustra sempre fazia – se gostaríamos de repetir a mesma vida eternamente. Uma ideia curiosa e, quanto mais Julius pensava nela, mais seguro se sentia: a mensagem de Nietzsche para nós era viver de forma a querer a mesma vida sempre.

Continuou folheando as páginas e parou em dois trechos bem sublinhados com tinta rosa “Complete sua vida.” “Morra na hora certa.”

Isso mesmo. Viva o melhor possível e, só então, morra. Não deixe nada por viver. Julius comparava as ideias de Nietzsche a um teste de Rorschach, pois tinham tantos pontos de vista opostos que a conclusão dependia de quem lesse ou, no teste, de quem olhasse. Por mais que Zaratustra exaltasse, até glorificasse a solidão, por mais que exigisse o isolamento para poder pensar, ainda assim estava preocupado em amar e exaltar os outros, em ajudá-los a se aperfeiçoar e se exceder, com compartilhar com eles sua maturidade.

Colocou o livro de volta na estante, sentou-se no escuro e ficou olhando pela janela o farol dos carros, pensando nas palavras de Nietzsche. Após alguns minutos, conseguiu: descobriu o que fazer e como passar seu último ano de vida. Iria viver exatamente do mesmo jeito que o ano anterior e o antes do anterior. Gostava de ser terapeuta, gostava de se ligar a outras pessoas e ajudar a trazer algo à vida.

Pagina do NetMundi no Facebook

Pensar Contemporâneo

Um espaço destinado a registrar e difundir o pensar dos nossos dias.

Share
Published by
Pensar Contemporâneo

Recent Posts

Filme romântico com estrela de Intocáveis e Lupin é um tesouro escondido na Netflix

No meio de tantas estreias que entram no catálogo e somem sem muito barulho, French…

1 dia ago

Professora começa relação inesperada com colega de trabalho e descobre até onde a obsessão pode ir em nova série da Netflix

Obras sobre desejo e obsessão costumam caminhar por uma linha delicada: quando funcionam, o incômodo…

1 dia ago

Durante anos esse romance foi censurado e considerado escandaloso… Hoje virou filme imperdível na Netflix

Entre os dramas de época escondidos no catálogo da Netflix, há um filme que chama…

4 dias ago

Na Netflix, um simples pedido da neta faz uma avó encarar lembranças que ela passou anos tentando evitar

Há filmes que crescem justamente por parecerem simples à primeira vista. “Aprendendo com a Vovó”…

4 dias ago

Mpox pode virar epidemia ou surto no Brasil? Médico explica o que realmente preocupa no momento

Quando um vírus volta a aparecer nas manchetes, a dúvida costuma ser a mesma: “isso…

6 dias ago

Esse filme chocou plateias, causou desmaios no cinema e agora reapareceu no topo da Netflix

Lançado em 2004 e cercado de debates desde a estreia, A Paixão de Cristo voltou…

6 dias ago