Durante décadas, uma pergunta quase automática acompanhou o diagnóstico de câncer de pulmão: “A pessoa fumava?”. A associação faz sentido. O cigarro continua sendo, com folga, o principal fator de risco para a doença. O problema é que essa lógica criou um ponto cego: milhares de pacientes desenvolvem tumores pulmonares sem nunca terem sido fumantes.
E existe um elemento especialmente desconcertante nessa história. Parte desses casos pode estar relacionada a algo que fazemos involuntariamente durante o dia inteiro: respirar o ar ao nosso redor.
Um estudo publicado em 2025 por pesquisadores da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), vinculada à Organização Mundial da Saúde, chamou atenção para o crescimento do adenocarcinoma pulmonar e para sua relação com a poluição atmosférica.
O adenocarcinoma é atualmente um dos tipos mais frequentes de câncer de pulmão e aparece com particular importância entre pessoas que nunca fumaram.
Não existe uma porcentagem única válida para todos os países e populações. Nos Estados Unidos, por exemplo, dados da American Cancer Society indicam que até cerca de 20% das pessoas diagnosticadas com câncer de pulmão nunca fumaram ou fumaram menos de 100 cigarros durante toda a vida.
Em levantamentos populacionais mais restritos, esse percentual pode ser menor. Um estudo com mais de 129 mil pacientes encontrou aproximadamente 12,5% dos diagnósticos em pessoas que nunca haviam fumado. Entre as mulheres, a proporção foi maior do que entre os homens.
Portanto, ainda seria errado inverter a situação e tratar o cigarro como um detalhe secundário. A IARC estima que o tabagismo esteja relacionado a aproximadamente 85% dos casos de câncer de pulmão no mundo.
A novidade está justamente no grupo restante.
O ar das cidades contém uma mistura de partículas e gases provenientes de veículos, indústrias, queimadas, geração de energia e outras fontes.
Entre os componentes mais estudados estão as chamadas partículas finas PM2,5, pequenas o suficiente para penetrar profundamente no sistema respiratório.
A exposição prolongada à poluição atmosférica está associada ao aumento do risco de câncer de pulmão. A própria IARC inclui a poluição do ar externo entre os agentes carcinogênicos para humanos.
Em fevereiro de 2025, pesquisadores da instituição publicaram uma análise sobre a incidência mundial dos principais subtipos de câncer de pulmão. O estudo destacou o aumento do adenocarcinoma e sua associação com a poluição atmosférica.
Isso ajuda a explicar por que o comportamento da doença vem mudando em diferentes regiões mesmo enquanto o consumo de cigarro diminui em parte da população.
A situação é particularmente incômoda porque evitar completamente essa exposição é quase impossível.
É possível decidir não fumar. Ninguém consegue decidir não respirar.
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As partículas presentes no ar poluído podem alcançar regiões profundas do sistema respiratório e provocar inflamação persistente e alterações no ambiente celular.
Ao longo de anos de exposição, esse processo pode contribuir para danos capazes de favorecer o desenvolvimento de tumores.
Isso não significa que morar em uma cidade poluída fará alguém desenvolver câncer. O risco individual depende de vários fatores, incluindo intensidade e duração da exposição, características genéticas e contato com outros agentes cancerígenos.
Mesmo assim, a poluição deixou de ser tratada como uma simples irritação respiratória.
A American Cancer Society reconhece a poluição atmosférica, especialmente a exposição próxima a vias de tráfego intenso, como um dos fatores capazes de aumentar o risco de câncer de pulmão em pessoas que não fumam.
A poluição urbana não é o único agente ambiental envolvido.
Existe também o radônio, um gás radioativo produzido naturalmente pela decomposição de elementos encontrados no solo e nas rochas.
Ele não tem cheiro, cor nem sabor. Em áreas abertas costuma aparecer em concentrações muito baixas, mas pode se acumular dentro de construções após penetrar por rachaduras, pisos, fundações e outras aberturas.
Quando inalados durante longos períodos, o radônio e seus produtos de decomposição podem atingir o tecido pulmonar e emitir radiação capaz de danificar as células.
Nos Estados Unidos, a Agência de Proteção Ambiental considera o radônio a principal causa de câncer de pulmão entre pessoas que nunca fumaram e a segunda maior causa da doença no conjunto da população, atrás do cigarro.
A relevância do radônio varia muito conforme a geologia e as características das construções de cada região. Por isso, dados americanos não devem ser simplesmente transportados para qualquer país.
“Nunca fumei” também não significa necessariamente ausência de contato com fumaça de cigarro.
Quem convive durante anos com fumantes pode inalar regularmente substâncias cancerígenas presentes na fumaça ambiental.
A American Cancer Society inclui o tabagismo passivo entre os fatores reconhecidos de câncer de pulmão em não fumantes e estima milhares de casos e mortes associados a essa exposição todos os anos nos Estados Unidos.
Em outras palavras, uma pessoa pode passar décadas sem colocar um cigarro na boca e ainda assim ser exposta aos seus componentes.
Algumas exposições ocupacionais merecem atenção especial.
Asbesto, arsênio, urânio, gases de escapamento de motores a diesel e determinados produtos químicos estão entre os agentes relacionados ao câncer pulmonar.
O risco depende do material, da concentração e do período de contato.
Profissionais que atuaram durante anos em ambientes industriais, mineração, construção civil ou locais onde existia exposição a asbesto, por exemplo, podem apresentar risco maior mesmo sem histórico de tabagismo.
Outro ponto curioso apareceu com o avanço dos testes moleculares.
Tumores pulmonares encontrados em pessoas que nunca fumaram frequentemente apresentam alterações genéticas diferentes das observadas nos cânceres fortemente associados ao tabaco.
Entre elas estão mudanças em genes como EGFR, ALK, ROS1, MET, RET, BRAF e NTRK.
Isso tem uma consequência prática importante.
Algumas dessas alterações funcionam como alvos para medicamentos específicos. Quando um tumor apresenta determinada mutação, oncologistas podem utilizar terapias desenvolvidas para bloquear aquela alteração molecular.
Por isso, testes genômicos realizados após o diagnóstico ganharam espaço no tratamento do câncer de pulmão.
Vale uma distinção: encontrar uma mutação no tumor não significa automaticamente que ela foi herdada dos pais. Muitas dessas alterações surgem apenas nas próprias células cancerígenas ao longo da vida.
Existe um problema de percepção.
Tosse persistente, falta de ar, dor no peito, rouquidão ou infecções respiratórias recorrentes em uma pessoa que fuma podem despertar rapidamente a preocupação com câncer pulmonar.
Em alguém jovem ou que nunca fumou, os mesmos sintomas podem inicialmente ser atribuídos a outras condições.
A própria American Cancer Society alerta que a crença de que câncer de pulmão acontece somente com fumantes pode contribuir para atrasos no diagnóstico de pessoas sem histórico de tabagismo.
Ao mesmo tempo, isso não significa que pessoas saudáveis e sem fatores de risco devam começar a fazer tomografias periódicas por conta própria.
Os programas de rastreamento com tomografia computadorizada de baixa dose ainda são direcionados principalmente às pessoas com histórico relevante de tabagismo, justamente porque é nesse grupo que os benefícios e riscos do rastreamento foram mais bem estabelecidos.
É preciso colocar a afirmação em perspectiva.
O número total de casos de câncer de pulmão vem diminuindo em alguns países devido principalmente à redução do tabagismo. Nos Estados Unidos, por exemplo, a American Cancer Society informa que tanto a incidência quanto a mortalidade vêm caindo.
O que pesquisadores estão observando é uma mudança na composição dos casos.
O adenocarcinoma ganhou participação entre os diferentes tipos de câncer pulmonar, e fatores ambientais como a poluição passaram a receber atenção crescente na tentativa de explicar parte desse fenômeno.
Para quem nunca fumou, os principais fatores conhecidos incluem radônio, fumaça passiva, poluição atmosférica, determinadas exposições profissionais e alterações moleculares presentes nos próprios tumores. Existem ainda pacientes nos quais nenhuma causa específica consegue ser identificada.
Talvez seja exatamente esse o aspecto mais estranho da história: abandonar o cigarro continua sendo a medida individual mais poderosa contra o câncer de pulmão, mas uma parcela da população continuará exposta a riscos simplesmente porque precisa trabalhar, morar em determinadas regiões e respirar o mesmo ar que todo mundo.
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