“Amores à Parte” começa no ponto em que muita gente preferia que a vida desse uma pausa: Carey (Kyle Marvin) está tentando funcionar no automático quando Ashley (Adria Arjona) solta, de forma seca, que traiu e quer o divórcio.
Sem discurso, sem tentativa de “explicar melhor depois”. É o tipo de frase que desmonta a semana inteira em segundos — e deixa ele sem chão, procurando um lugar pra encostar a cabeça.
No reflexo, ele corre para onde tem intimidade e acolhimento: a casa dos amigos Julie (Dakota Johnson) e Paul (Michael Angelo Covino). De fora, o casal parece aquele exemplo irritante de estabilidade: cumplicidade, tranquilidade, zero drama na superfície.
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Só que a conversa vira rápido quando eles revelam o que mantém o acordo em pé: eles têm um casamento aberto — e falam disso como quem comenta a divisão das contas do mês.
Quando Carey se agarra nessa ideia, o filme deixa claro o risco do atalho emocional. Ele não entra nessa dinâmica por entendimento real do que está fazendo; entra porque está ferido e quer anestesiar o fracasso recente.
O problema é que relacionamento aberto, na prática, não tem nada de “simples”: pede conversa difícil, regras bem combinadas, autocontrole e, principalmente, clareza sobre o que cada um aguenta — exatamente o que Carey ainda não tem.
A graça e o desconforto aparecem quando ele tenta copiar um modelo que parece funcionar para os outros, mas não encaixa no estado mental em que ele está.
Uma coisa é ouvir Julie e Paul falando com segurança; outra é lidar, no corpo e no orgulho, com as consequências do combinado. E cada tentativa de “levar numa boa” abre espaço pra ciúmes, inseguranças e reações que ninguém planejou.
Na direção, Michael Angelo Covino evita vender lição pronta. Em vez de transformar a história em debate, ele aposta nas fricções do dia a dia: o que as pessoas dizem aceitar versus o que conseguem sustentar quando a situação aperta.
Julie e Paul também têm ruídos, limites mal resolvidos e pequenas concessões que ficam no ar — e isso tira o casal do pedestal e coloca os dois no mesmo nível de confusão do resto.
Dakota Johnson é o centro de gravidade do trio: Julie parece firme, mas carrega uma ambiguidade que dá vontade de pausar a cena pra entender o que ela está escondendo de si mesma. Kyle Marvin faz um Carey impulsivo, vulnerável e meio teimoso — às vezes dá raiva, e justamente por isso soa humano.
Já Adria Arjona mantém Ashley longe de caricatura: ela toma uma decisão dura e segue em frente sem pedir permissão emocional pra ninguém.
O humor nasce do constrangimento honesto: personagens tentando parecer maduros enquanto tropeçam em sentimentos óbvios, conversas mal conduzidas e acordos que funcionavam “na teoria”.
“Amores à Parte” observa como um rompimento bagunça não só um casal, mas também amizades, confiança e o jeito que cada um se enxerga quando precisa recomeçar.
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