Todos apaixonam-se uma vez na vida (em teoria, pelo menos), amam e são amados (talvez nem sempre) e experimentam as dores e delícias do brilho no olhar, do coração batendo mais forte só de pensar na pessoa que, naquele exato momento, é única e insubstituível, e das emoções, à simples proximidade, que levam ao céu. O outro lado do nirvana são as lágrimas depois de uma briga, a sensação dilacerante de perda após um rompimento, a crença de que o mundo caiu, a vida acabou e nunca, nunca mais se vai ser feliz novamente. Encontrar o amor da vida inteira ainda é o sonho de muita gente, mas e quando o que podia trazer felicidade se transforma num tormento para o indivíduo e para o alvo de seu afeto?

O amor patológico é dependência comportamental tão destrutiva quanto a compulsão por drogas, sexo, jogo, comida etc. Como acontece em todas as compulsões, a pessoa sofre, sabe que a situação é insustentável (e, na maioria das vezes, guarda segredo, por vergonha ou culpa) e não consegue romper o relacionamento e se afastar. Se ainda não é reconhecido como transtorno psicológico, é objeto de pesquisas, pois, sem dúvida, causa problemas graves a seus portadores e àqueles que os cercam. Sem mencionar os crimes erroneamente denominados de passionais, porque paixão não combina com crime, agressão e morte, amor traz à tona o que se tem de melhor, como doação e generosidade.

As pistas de que o amor passou do limite de sentimento saudável a patológico são uma extrema dependência do outro, que se torna o único interesse, negligenciando as atividades diárias e o trabalho, e afastamento da família e dos amigos; medo intenso e constante de ser rejeitado ou de perder o companheiro; desconfiança e ciúmes excessivos, que provocam descontrole e comportamentos que dificultam a convivência, como seguir e vigiar o parceiro (telefonemas, e-mails, redes sociais), chegando à agressão física; sintomas de abstinência, como insônia, alterações de apetite, irritação e tensão, quando o parceiro está física ou emocionalmente distante; dedicação total ao companheiro, com a sensação de que seus cuidados e gentilezas nunca são suficientes para suprir as necessidades do outro, além do impulso irresistível de agradá-lo o tempo todo, praticamente abrindo mão de si mesmo; insistência em manter o relacionamento, muitas vezes insatisfatório ou abusivo, mesmo com evidências de que lhe é prejudicial.

E quais são as causas do amor patológico? Não se deve esquecer que, na origem de tudo, existe uma personalidade vulnerável, um indivíduo com predisposição psicológica para desenvolver transtornos. Baixa autoestima, carência emocional derivada de infância de pouca atenção e carinho por parte dos pais, necessidade de preencher um vazio emocional desenvolvido ao longo da vida, acompanhado por sensação de desamparo, inadequação e desvalor. A história da pessoa acaba reproduzindo as relações disfuncionais do passado: ela não consegue se libertar dos modelos familiares, o que faz com que busque parceiros com características que reforçam suas crenças a respeito de si mesmo, do mundo e do futuro.

Muitas vezes o amor que vira doença vem associado a quadros de depressão, ansiedade e fobias, como a síndrome do pânico. As pessoas costumam procurar orientação especializada quando o relacionamento acaba ou existe a ameaça concreta de perder o parceiro. Um dos focos do tratamento é a descoberta de que, para amar, não é necessário, nem indicado, perder a si mesmo no outro, misturar-se a ponto de acreditar que não se pode existir sem o companheiro. Entre alguém se tornar importante e se transformar no ar que se respira há uma diferença que pode definir o que é sentimento ou obsessão.

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