Um cristão que se perdesse em raciocínios proibidos poderia muito bem se perguntar um dia: Será, pois, “necessário” que haja realmente um Deus e também um cordeiro que carrega os pecados dos homens, se a “fé” na existência de semelhantes seres já é suficiente para produzir o mesmo efeito?
Não são seres “supérfluos”, caso existam realmente? De fato, tudo o que a religião cristã dá à alma humana de benfazejo, que consola e torna melhor, como tudo o que assusta e esmaga, provém dessa crença e não do objeto dessa crença.
Não é em nada diferente desse célebre caso: pode-se afirmar que nunca houve bruxas, mas os terríveis resultados da crença na bruxaria foram os mesmos que se tivesse realmente havido bruxas.
Para todas as ocasiões em que o cristão espera a intervenção de um Deus, mas o espera verdadeiramente— porque não há Deus— sua religião é muito inventiva para encontrar subterfúgios e razões de tranquilidade: nisso é certamente uma religião cheia de espírito.
Para dizer a verdade, a fé não conseguiu ainda deslocar verdadeiras montanhas, embora isso tenha sido afirmado por não sei mais quem; mas sabe colocar montanhas onde não as há.
Excerto da obra Humano Demasiado Humano
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