Literatura

“Prece” – O poema ‘oração’ de Fernando Pessoa declamado por Bethânia

Fernando Pessoa é de longe o poeta mais admirado da língua portuguesa. Tem sido o mestre, o espelho e a referência de uma infinidade de poetas desde que se destacou com seus versos maravilhosos. Quem gosta de poesia, lê (ou ouve) os poemas desse mago das palavras, mergulha num poço de encantamentos e sente quase impossível sair dele.

Entre as receitas de magia e sonhos que Fernando Pessoa criou, tem o poema PRECE. Esse poema revela o sentido de espiritualidade que o poeta tinha, e absorvia-se dele, bem ao contrário de seu heterônimo Alberto Caeiro, o qual o poeta o concebera como um ser cético. Sobre Caieiro ele disse em uma carta:

“(…) escrevi com sobressalto e repugnância o poema oitavo do ‘Guardador de Rebanhos’, com a sua blasfêmia infantil e o seu antiespiritualismo absoluto. Na minha pessoa própria, e aparentemente real, com que vivo social e objetivamente, nem uso da blasfêmia, nem sou antiespiritualista. Alberto Caeiro, porém, como eu o concebi, é assim: assim tem pois ele que escrever, quer eu queira, quer não, quer eu pense como ele ou não. (…)”

Bom, quando for o momento de Caeiro, convocaremos ele, mas agora é a vez de apreciarmos todo o sentimento que seu criador, Fernando pessoa, majestosamente colocou nessa “oração” em forma de poema, que você pode apreciar na maravilhosa declamação de Maria Bethânia.   (Acompanhe o texto logo abaixo da postagem do vídeo)

Senhor, que es o céu e a terra, que es a vida e a morte!
O sol es tu e a lua es tu e o vento es tu! Tu es os nossos
corpos e as nossas almas e o nosso amor es tu tambem. Onde
nada está tu habitas e onde tudo está – (o teu templo) –
eis o teu corpo.

Dâ-me alma para te servir e alma para te amar. Dâ-me vista
para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir
no vento e no mar, e meos para trabalhar em teu nome.

Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja
lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas
nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar
os outros como irmãos e servir-te como a um pai.

Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja
digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante
de ti como um filho que volta ao lar.

Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar
em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa
rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te
possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te.

Senhor, protege-me e ampara-me. Da-me que eu me sinta teu.
Senhor, livra-me de mim.

 

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