Há algo curioso na história de Kim Novak: ela saiu de Hollywood antes que Hollywood decidisse o que fazer com ela.
Em uma indústria acostumada a fabricar rostos, nomes, romances e até temperamentos para vender ingressos, a atriz percebeu cedo que a fama podia funcionar como uma espécie de contrato invisível. Quanto mais o público a via como mito, menos espaço sobrava para a pessoa real.
Nascida Marilyn Pauline Novak, em Chicago, em 13 de fevereiro de 1933, ela chegou ao cinema nos anos 1950 e logo foi transformada em uma das grandes apostas da Columbia Pictures.
O estúdio queria lapidar sua imagem, ajustar seu nome, controlar suas aparições e enquadrá-la no tipo de estrela feminina que Hollywood sabia vender muito bem naquele período. Novak aceitou parte do jogo, mas nunca pareceu confortável dentro dele.
O auge veio com filmes como Picnic, Pal Joey, Bell, Book and Candle e, principalmente, Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock. Lançado em 1958, o longa se tornaria uma das obras mais estudadas da história do cinema, e a presença de Novak nele ajudou a fixar sua imagem como uma figura misteriosa, elegante e difícil de reduzir a uma definição simples.
Mas, por trás da imagem cuidadosamente iluminada, havia uma atriz incomodada com o modo como sua identidade era administrada por outras pessoas. Em entrevistas recentes, Novak voltou a falar sobre a pressão dos estúdios, sobre a tentativa de moldá-la conforme interesses comerciais e sobre a necessidade de proteger aquilo que ela sentia ser seu centro pessoal.
A saída de Hollywood não aconteceu como um gesto teatral. Kim Novak foi diminuindo o ritmo, escolhendo menos projetos e se afastando do ambiente que a havia colocado nas capas de revistas e nos grandes tapetes vermelhos. Em vez de disputar permanência em uma indústria pouco gentil com mulheres que envelhecem, ela preferiu construir outro cotidiano.
Esse outro caminho passou por Big Sur e, depois, pelo Oregon, onde encontrou uma vida mais ligada à pintura, aos animais e à natureza. A atriz, que já tinha interesse por arte antes da fama, passou a dedicar cada vez mais tempo às telas, aos desenhos, às cores e à escrita. Seu site oficial hoje apresenta Novak como artista e poeta, com obras em técnicas como pastel e aquarela.
No Oregon, a rotina ficou distante da engrenagem de Los Angeles. Kim viveu por décadas ao lado do marido, Robert Malloy, veterinário de grandes animais, com quem se casou em 1976. Ele morreu em 2020, após 44 anos de casamento. Depois da perda, Novak encontrou na arte uma forma de atravessar o luto sem transformar sua dor em espetáculo público.
A discrição, aliás, virou uma marca de sua fase madura. Novak raramente aparece em eventos, mas quando surge, o interesse reaparece com força. Em 2025, aos 92 anos, ela recebeu o Leão de Ouro pelo conjunto da obra no Festival de Veneza, homenagem acompanhada da estreia do documentário Kim Novak’s Vertigo, dirigido por Alexandre O. Philippe.
A homenagem teve um peso especial porque Novak nunca foi só “a musa de Hitchcock”, rótulo que costuma simplificar sua história. Ela foi uma atriz que enfrentou a lógica dos estúdios, preservou seu sobrenome quando tentaram alterá-lo por completo, questionou os padrões impostos à sua imagem e, em determinado momento, decidiu que continuar famosa não valia o custo de se sentir apagada por dentro.
Também houve desafios pessoais. Em 2010, sua equipe confirmou que ela havia sido diagnosticada com câncer de mama e estava em tratamento. Anos depois, Novak seguiu fazendo aparições pontuais e falando sobre arte, envelhecimento, memória e identidade, quase sempre a partir de um lugar mais reservado do que promocional.
Sua trajetória chama atenção justamente por não obedecer ao roteiro esperado. Kim Novak conheceu o topo da fama, viveu o incômodo de ser transformada em produto e escolheu uma vida em que pudesse pintar, cuidar de animais, preservar sua privacidade e aparecer apenas quando a ocasião fizesse sentido. Para uma estrela criada no auge do sistema de estúdios, essa talvez tenha sido sua decisão mais ousada.
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