Filmes e Séries

Um filme tão assustador que é difícil acreditar ser baseado em uma história real — premiado com o Oscar de 2023

Tem filme que assusta com susto. Entre Mulheres (Women Talking) assusta de um jeito mais seco: com um grupo de mulheres sentadas num celeiro, tentando decidir o que fazer depois de descobrirem que foram dopadas e violentadas — repetidas vezes — pelos homens da própria comunidade.

O medo aqui não vem de um “monstro”; vem de perceber como a violência pode ser tratada como rotina quando todo mundo ao redor prefere chamar de “coisa da cabeça” ou “castigo divino”.

A história do filme nasce de um caso real que aconteceu numa colônia menonita isolada na Bolívia: entre 2005 e 2009, mulheres e meninas acordavam machucadas, sem entender o que tinha ocorrido; depois veio a revelação de que um grupo de homens usava um spray/anquilésico para sedar casas inteiras e cometer os abusos. Em 2011, houve condenações no país.

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No longa (roteiro e direção da Sarah Polley), o foco é menos “quem fez” e mais “o que acontece depois”.

A trama se passa em 2010 e cria um recorte simples, quase claustrofóbico: com os homens fora para tentar libertar os agressores, as mulheres têm dois dias para votar entre três caminhos — ficar e não fazer nada, ficar e lutar, ou ir embora.

O empate obriga um grupo a discutir até chegar numa decisão final.

O detalhe que dá o tom (e o incômodo) é que essa conversa não é “terapêutica”. É política, prática e cheia de atrito.

Cada personagem puxa a decisão para um lado por motivos muito concretos: filhos, medo de retaliação, fé, raiva, cansaço, esperança, vergonha que nem deveria ser delas.

E como várias não foram alfabetizadas, entra em cena August (Ben Whishaw), o professor encarregado de anotar tudo — o que adiciona outra camada: até quando elas falam, ainda há um filtro masculino registrando a história.

O filme também evita a armadilha do “discurso perfeito”. As falas tropeçam, voltam, brigam por palavras — e isso é parte do impacto.

A Polley filma debate como se fosse um duelo sem armas: quem fala mais alto, quem hesita, quem tenta “ser razoável” quando a situação já passou do limite faz tempo. É um drama de ideias, mas com cheiro de sangue por baixo da madeira.

E aí entra o motivo de muita gente sair do filme com aquele nó no estômago: não há catarse fácil. A câmera não está interessada em mostrar violência graficamente; o horror está na administração do horror.

Quando o grupo precisa escolher “lutar” ou “ir embora”, a pergunta real vira outra: o que custa mais caro — perder a casa ou perder a si mesma?

Vale lembrar que Entre Mulheres é adaptação do romance de Miriam Toews, escrito como resposta ficcional aos crimes da colônia da Bolívia.

E, no Oscar de 2023 (95ª edição), foi justamente esse trabalho de transpor o livro para o cinema que a Academia premiou: Melhor Roteiro Adaptado para Sarah Polley (o filme também foi indicado a Melhor Filme).

No elenco, o peso vem do conjunto — Rooney Mara, Claire Foy, Jessie Buckley, Judith Ivey, Frances McDormand (também produtora) e outras — e da sensação de que ninguém está ali para “brilhar” sozinho; a atuação é quase sempre de reação, de escuta, de segurar a raiva para não virar cinza.

No fim, o que faz Entre Mulheres ser “assustador” não é o que ele mostra, e sim o que ele deixa claro: quando uma comunidade inteira decide fingir que não viu, o impossível vira rotina — e aí a pergunta deixa de ser “como isso aconteceu?” e passa a ser “quantas vezes acontece até hoje, com outros nomes, em outros lugares?”.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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