Tem terror que te pega pelo susto. The Blackcoat’s Daughter prefere outro caminho: ele vai “baixando o volume” do mundo ao redor até sobrar só frio, silêncio e aquela sensação incômoda de que algo está errado faz tempo.
É um filme que trabalha com espera, com detalhe pequeno (um corredor comprido demais, uma sala vazia demais) e com a ideia de que isolamento não precisa de gritaria para virar ameaça.
Escrito e dirigido por Osgood Perkins (sim, o mesmo que depois seguiria nesse tipo de clima mais contido), o longa também circula com o título February.
Ele foi exibido em festival em 2015, mas ganhou lançamento mais amplo só depois, com distribuição da A24 nos EUA, e tem cerca de 93 minutos — o suficiente para montar a armadilha com calma, sem pressa e sem “explicar demais”.
A história se apoia em três linhas que parecem separadas no começo: no internato Bramford, durante as férias de inverno, Kat (Kiernan Shipka) e Rose (Lucy Boynton) ficam para trás quando os pais não aparecem; em paralelo, Joan (Emma Roberts) atravessa estradas congeladas rumo ao mesmo lugar, com um objetivo que o filme faz questão de manter nebuloso.
O roteiro brinca com o tempo e com a informação: você entende o básico rápido, mas o “como” e o “por quê” vêm em parcelas, e isso aumenta o desconforto.
O que mais impressiona é como Perkins usa o colégio quase como um organismo: portas, escadas, quartos e capela viram peças de uma rotina sem saída.
A câmera insiste em espaços vazios e distâncias longas, e a neve do lado de fora funciona como um bloqueio físico e mental. Não é aquele terror que quer te distrair com truque; ele quer que você repare. E quando você repara, começa a antecipar o pior.
As atuações ajudam muito a vender essa “febre baixa” do medo. Shipka segura bem uma personagem que parece deslocada até quando está parada; Boynton traz uma energia mais reativa, como quem tenta manter algum senso de normalidade; e Roberts entra como um ponto de tensão ambulante, porque o filme faz você suspeitar dela antes mesmo de você ter motivos claros.
O elenco principal (Roberts, Shipka, Boynton, Lauren Holly, James Remar) forma um conjunto bem afinado para uma história que depende de atmosfera e de não verbalizar tudo.
Outro acerto é a trilha de Elvis Perkins, que evita “subir” para te avisar de algo. Em vez disso, ela aparece como pressão — um ruído emocional que combina com a proposta do diretor de contar uma história triste sobre perda usando o horror como disfarce.
Vale avisar: é um filme de ritmo paciente. Se você entra esperando sequência de eventos e explicações diretas, pode bater aquela impaciência.
Por outro lado, se você curte terror que confia no clima, em pequenas pistas e em uma estrutura que se encaixa aos poucos, aqui tem material de sobra.
A recepção crítica foi bem sólida (por exemplo, notas na faixa de “geralmente favorável” em agregadores), o que combina com esse tipo de proposta mais autoral.
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Fonte: IMDb
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