Filmes e Séries

Casada e infeliz, mulher reencontra ex-amor da juventude e toma decisão que muda tudo em romance da Netflix

Há filmes que não precisam inventar grandes tragédias para tocar em pontos sensíveis.

Às vezes, basta olhar para uma casa onde tudo funciona no automático: filhos, trabalho, horários, pequenas obrigações, conversas pela metade e um casamento que continua de pé mais pela rotina do que pelo desejo.

É nesse tipo de terreno emocional que “Esta Noite, Você Dorme Comigo”, drama romântico polonês disponível na Netflix, tenta construir sua história.

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O filme acompanha Nina, uma jornalista que vive um casamento morno com Maciek, um marido distante, embora não seja tratado como vilão absoluto pela trama.

A própria Netflix resume o conflito central como a história de uma mulher que precisa escolher entre o marido “distante, mas amoroso” e um ex-namorado mais jovem que reaparece em sua vida. No elenco principal estão Roma Gąsiorowska, Wojciech Zieliński e Maciej Musiał.

A volta desse antigo amor, Jan, não chega como um simples reencontro nostálgico. Ele aparece como uma espécie de interrupção em uma vida que Nina parecia já ter aceitado como possível, mesmo sem muita vibração.

O problema é que o filme deixa claro desde cedo que o conflito dela não nasce só do desejo por outro homem.

O ponto mais incômodo está na pergunta que ronda a personagem: quanto de si mesma ela deixou parado para sustentar a imagem de esposa, mãe e profissional correta?

Dirigido por Robert Wichrowski, o longa também é uma adaptação do romance de Anna Szczypczyńska, o que ajuda a explicar seu interesse por dilemas internos e escolhas afetivas mais do que por acontecimentos grandiosos.

Ainda assim, a adaptação nem sempre consegue transformar esse material em cinema com a mesma força que a premissa promete.

O maior acerto de “Esta Noite, Você Dorme Comigo” está em não pintar o casamento de Nina como uma prisão caricata. Maciek não é apresentado como um monstro, e isso torna tudo mais desconfortável.

Ele é ausente, falha em enxergar a mulher ao lado, parece acomodado demais, mas também existe afeto ali. Essa escolha impede que o filme simplifique demais a decisão da protagonista.

Nina não está fugindo de uma relação claramente insuportável; ela está encarando algo mais difícil de admitir: uma vida correta pode, ainda assim, estar emocionalmente esvaziada.

O romance com Jan tem apelo justamente porque devolve a Nina uma sensação de reconhecimento. Ele olha para ela de um jeito que o casamento já não parece oferecer.

O filme trabalha essa diferença entre ser amada “na prática” e se sentir desejada, vista, lembrada. Para muita gente, esse é o ponto que torna a história fácil de acompanhar, especialmente para quem gosta de dramas românticos centrados em decisões adultas, com culpa, vontade, medo e responsabilidade misturados.

Por outro lado, o longa escorrega quando acelera demais a reaproximação entre Nina e Jan. A química entre os dois existe, mas alguns momentos pedem uma construção mais cuidadosa.

A sensação, em certas partes, é de que o roteiro quer chegar logo ao dilema principal e pula etapas importantes do reencontro.

Críticas internacionais também apontaram esse problema, citando um desenvolvimento apressado e um roteiro por vezes expositivo demais.

Mesmo com essas falhas, Roma Gąsiorowska segura boa parte do filme. Sua Nina não parece uma personagem tentando justificar cada escolha para o público. Ela erra, hesita, se contradiz e tenta organizar sentimentos que não cabem em respostas fáceis.

Essa atuação ajuda o longa a não virar só um melodrama sobre traição ou paixão antiga. O que está em jogo é menos “com quem Nina deve ficar” e mais “que tipo de vida ela ainda consegue reconhecer como sua”.

“Esta Noite, Você Dorme Comigo” deve funcionar melhor para quem gosta de romances dramáticos sobre relações desgastadas, reencontros e decisões afetivas sem saída confortável.

Não é um filme especialmente sutil em todos os momentos, e algumas viradas poderiam ter mais peso se fossem melhor preparadas.

Ainda assim, a trama encontra força quando observa o incômodo silencioso de uma mulher que percebe que estabilidade, sozinha, não resolve a falta de desejo, escuta e presença dentro de casa.

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Gabriel Pietro

Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.

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