Nem todo filme que mexe com o espectador precisa recorrer a grandes acontecimentos.
Às vezes, o desconforto vem justamente do que parece banal: um pai tentando se aproximar da filha, um artista às voltas com a própria obra, uma rotina atravessada por silêncios, culpa e inadequação.
É nesse terreno mais íntimo e incômodo que Belmonte se instala, construindo um drama discreto, mas cheio de ruídos emocionais.
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Lançado em 2018 e dirigido por Federico Veiroj, o longa uruguaio acompanha Javier Belmonte, um pintor que vive um momento delicado em várias frentes.
Enquanto prepara uma exposição em Buenos Aires, ele tenta manter algum tipo de estabilidade na relação com a filha Celeste, de 9 anos, ao mesmo tempo em que se vê afetado pela gravidez da ex-mulher, Jeanne.
O filme não transforma isso em melodrama. Pelo contrário: prefere observar as fissuras desse homem sem oferecer respostas fáceis.
Veiroj conduz a trama com atenção especial ao que Belmonte revela sem perceber. O protagonista é vivido por Gonzalo Delgado com uma contenção muito eficiente, daquelas que fazem o personagem parecer ao mesmo tempo simpático e difícil de alcançar.
Há carisma nele, mas também uma espécie de imaturidade emocional que contamina tudo ao redor. Quanto mais tenta parecer centrado, mais deixa escapar suas fragilidades.
A profissão do personagem não está ali só como detalhe de cenário. As pinturas de Belmonte, centradas em corpos masculinos nus, ajudam a abrir o que o filme quer discutir sobre identidade, masculinidade e autoimagem.
Os quadros exibem figuras estranhas, quase animalescas, de presença física forte e aparência desconfortável. Não são imagens colocadas à toa: elas funcionam como extensões do próprio protagonista, como se ele fosse se espalhando pela tela em versões que nem ele conseguiria encarar por inteiro.
Esse jogo entre arte e vida deixa o filme mais interessante porque nunca soa didático. Belmonte não explica demais o que sente, nem força diálogos para organizar os conflitos.
O que existe é um homem perdido entre o que deseja ser, o que consegue sustentar e o que os outros enxergam nele. Isso aparece com força na relação com Celeste, interpretada por Olivia Molinaro Eijo com naturalidade admirável. A menina percebe mais do que fala, e essa percepção muda o peso de várias cenas.
O vínculo entre pai e filha está no centro do longa, mas longe de qualquer idealização. Belmonte quer estar perto, quer ser necessário, quer ocupar espaço — só que muitas vezes parece buscar na filha um alívio para o próprio vazio.
A menina sente isso. E o filme acerta justamente por mostrar essa dinâmica sem exagero, deixando claro que afeto e desconforto podem coexistir dentro da mesma relação.
Em paralelo, a história também observa o modo como esse personagem lida com sua sexualidade, com o corpo e com a imagem masculina.
Há insegurança, culpa e repressão atravessando suas escolhas, inclusive em momentos que poderiam levar o enredo para um lugar mais explosivo. Veiroj prefere outra via: a do embaraço, do gesto interrompido, da hesitação que diz mais do que qualquer rompante.
A crise de Belmonte se intensifica à medida que a estreia da exposição se aproxima. O que deveria ser um momento de afirmação profissional acaba funcionando como gatilho para o descontrole íntimo.
Ele se torna mais errático, mais infantil, mais dependente de validação. E esse movimento torna difícil defendê-lo por completo, embora o filme também não convide o público a descartá-lo. É um personagem contraditório, por vezes patético, por vezes triste de observar.
Há ainda pequenas passagens paralelas que ampliam o alcance do longa, como a presença do pai de Belmonte e do irmão Marcelo. São inserções rápidas, mas úteis para mostrar que aquele mal-estar não nasce do nada.
Existe uma herança emocional ali, um jeito truncado de lidar com desejo, afeto e identidade, que percorre diferentes gerações da família sem precisar ser verbalizado a todo instante.
O que mais chama atenção em Belmonte é a forma como ele consegue ser delicado e desconfortável ao mesmo tempo. É um filme de poucas explosões e muitos sinais, daqueles que exigem atenção ao que está fora do diálogo e ao que se move por baixo da superfície.
Quem gosta de dramas mais silenciosos, centrados em personagem e cheios de tensão emocional miúda, pode encontrar aqui uma descoberta bem mais forte do que a aparência modesta sugere.
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