Em meio a tantos títulos que entram e saem do catálogo da Netflix sem fazer muito barulho, Relatos do Mundo é daqueles filmes que mereciam bem mais atenção.
Lançado em 2020, o longa dirigido por Paul Greengrass aposta numa narrativa contida, visual refinado e emoção sem exagero para contar uma história sobre trauma, deslocamento e convivência em um país ainda tentando se reorganizar depois da guerra.
E boa parte da força do filme está justamente na delicadeza com que ele escolhe contar tudo isso.
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Tom Hanks vive Jefferson Kyle Kidd, um veterano da Guerra Civil Americana que encontrou uma forma incomum de seguir em frente: viajar por pequenas cidades lendo notícias em voz alta para plateias que pagam alguns centavos pelo serviço.
Em um tempo em que a informação circulava devagar e alcançava pouca gente, esse trabalho transformava Kidd em algo entre mensageiro, cronista e elo humano entre lugares isolados.
O filme usa essa profissão curiosa para mostrar um período duro da história dos Estados Unidos, em que o país tentava se reconstruir enquanto ainda carregava feridas abertas.
A trama se passa em 1870, quando o ex-capitão cruza o caminho de Johanna, uma menina branca criada pelo povo Kiowa. Sozinha, assustada e sem conseguir se encaixar no mundo ao redor, ela acaba ficando sob a responsabilidade de Kidd, que precisa levá-la até familiares distantes.
A partir daí, o longa assume a forma de uma travessia marcada por silêncios, desconfiança, ameaças e, aos poucos, uma ligação afetiva entre duas pessoas que perderam quase tudo.
Helena Zengel, no papel de Johanna, é um dos grandes acertos do filme. Sua atuação evita qualquer tom artificial e sustenta uma personagem difícil, que se comunica pouco, reage com estranhamento ao ambiente “civilizado” e parece sempre em estado de alerta.
Ao lado dela, Hanks faz um trabalho sóbrio, sem buscar grandes explosões dramáticas. Ele segura o personagem no olhar, na pausa, na forma cautelosa de se aproximar da menina. É uma atuação madura, discreta e muito segura.
Paul Greengrass, conhecido por conduções mais nervosas em outros projetos, aqui desacelera o ritmo sem perder tensão. O resultado é um faroeste mais introspectivo, interessado menos em espetáculo e mais nas marcas deixadas pela violência.
Isso aparece tanto na relação entre os protagonistas quanto na paisagem social que o filme revela pelo caminho: racismo, ressentimento pós-guerra, abuso de poder e comunidades inteiras vivendo sob medo ou abandono.
Sem transformar seus temas em discurso decorado, Relatos do Mundo também toca em questões importantes da formação dos Estados Unidos.
A presença de Kidd como leitor de notícias, por exemplo, reforça o valor da informação num país fragmentado, onde muita gente ainda vivia distante de qualquer estrutura institucional confiável.
Já a trajetória de Johanna coloca em cena conflitos ligados à identidade, pertencimento e à brutalidade com que populações indígenas foram tratadas ao longo da história.
Visualmente, o longa chama atenção pela elegância. A fotografia investe em enquadramentos amplos, luz natural e tons terrosos que combinam com a secura emocional da história.
A trilha sonora de James Newton Howard entra no momento certo, sem manipular demais a reação do público, ajudando a ampliar a sensação de melancolia e deslocamento que acompanha toda a viagem.
Mesmo quando inclui sequências de perigo mais direto, como emboscadas e confrontos armados, o filme não perde sua linha principal.
A ação existe, mas nunca toma conta do que realmente importa: o vínculo improvável entre um homem cansado da guerra e uma garota arrancada de tudo o que conhecia. É isso que sustenta o filme até o fim.
Relatos do Mundo talvez não esteja entre os títulos mais comentados da filmografia de Tom Hanks, mas é justamente aí que mora sua força.
É um trabalho sensível, bem encenado e emocionalmente firme, que encontra potência no silêncio e na observação. Na Netflix, segue meio escondido — o que só torna mais fácil a sensação de descoberta para quem decidir dar play.
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