Texto de Gustl Rosenkranz
Para ilustrar melhor o que quero dizer com este texto, gostaria de começar contando a história de uma brasileira de 30 anos (ou seja, uma mulher adulta) que chegou a Berlim, achou uma moradia provisória e buscava algo definitivo. Ela procurava uma quitinete ou um quarto e viu o anúncio de uma família alemã que estava alugando um cômodo em sua casa.

A brasileira foi, viu o quarto, gostou, se entendeu bem com a família, quis ficar e fechou negócio com o locador. Havia outras pessoas interessadas, mas o locador, agindo corretamente, dispensou as demais, já que o quarto já havia sido alugado. Todo o acerto foi de boca e o contrato deveria ser assinado depois, quando ela viesse de mudança.

A nova inquilina deveria entrar em três semanas, mas, um dia antes da data marcada, a brasileira nem sequer se deu o trabalho de ligar para o locador para conversar. Ela simplesmente enviou uma mensagem via WhatsApp dizendo que havia achado outro lugar para morar e que não viria mais. O locador, com toda razão, ficou chateado, principalmente pela falta de respeito de desfazer algo acertado dessa forma infantil, egoísta e covarde de quem cuida dos próprios interesses sem querer saber das consequências para a outra parte envolvida. Ela não considerou que a família estava alugando o quarto a uma pessoa estranha por precisar do dinheiro e não por mera diversão.

O locador ligou para a mulher e cobrou um mês de aluguel, já que ele tinha tido prejuízo (ele poderia ter alugado a outra pessoa). Mas a mulher riu da cara dele, alegando que não havia assinado nada e que por isso não iria pagar coisa nenhuma, mesmo porque ela teria avisado a tempo (lembrando: um dia antes de mudar!).

Aqui vemos claramente o choque de seriedade: algo que no Brasil provavelmente ficaria por aí mesmo, sem maiores consequências, gerou um processo na justiça, com a brasileira tendo que pagar não somente um, mas três meses de aluguel (o prazo para rescisão de contrato de locação de imóveis), além de todas as despesas do processo. O que ela não sabia: em uma sociedade séria, não é preciso assinar nada para que um acordo valha. O que foi acertado de boca tem validade de contrato e tem que ser cumprido assim mesmo, contanto que se possa comprovar o acerto, o que não foi nenhum problema para o locador, já que ele não estava sozinho no dia que a brasileira tinha ido ver o quarto e, assim, tinha testemunhas do negócio fechado.

Se engana quem pensa que o absurdo acabou aí: a brasileira, ao invés de perceber seu erro e aprender a lição, saiu foi reclamando do locador alemão, que teria sido „escroto” (a palavra usada por ela) e se aproveitado da situação para arrancar dinheiro dela. Ou seja, a mulher se via como vítima, não achou nada demais em seu comportamento e, desse jeito, vai ser só uma questão de tempo até ela ter outro conflito por causa de sua falta de seriedade (e maturidade).


O choque da seriedade

Muitos que saem do Brasil para viver fora falam do choque cultural que sofrem, uns admirados com as diferenças, outros reclamando delas. Realmente, o choque pode ser grande quando se vê confrontado com uma outra cultura e os problemas podem ser bastante variados.

Tenho observado que um problema bastante comum, pelo menos aqui na Alemanha/na Europa, é o que chamo de choque da seriedade: acostumados com a “bagunça“ no Brasil e com o jeitinho brasileiro de resolver as coisas, as pessoas se veem chocadas quando chegam aqui e se cobra delas que ajam com seriedade, com compromisso e dentro das regras.

Percebo que muita gente está saindo do Brasil e vindo para cá atrás de uma vida melhor e tem quem traga consigo a ideia de que também aqui dá para sair enrolando, chegando atrasado ou não honrando compromissos, acertando coisas e não cumprindo, dando a palavra, mas mostrando em seguida que ela de nada vale e muitas coisas desse tipo.

A falta de seriedade dessa gente é problema pré-programado, já que isso não é bem visto e não é aceito em sociedades onde (ainda) se dá valor a um comportamento correto. Marcar algo e não cumprir pode ser visto pelos nativos como sinal de irresponsabilidade, desrespeito e imaturidade ou, no pior das hipóteses, como mau-caratismo mesmo.

Não, não digo que isso seja válido para todos os brasileiros que emigram, pois não é. Muitos são corretos (uns já eram antes, outros se adaptaram inteligentemente à realidade local), são pessoas honradas, que cumprem o acertado. Mas, infelizmente, há muita gente torta em nosso país e algumas estão vindo para cá.

Nem é meu objetivo criticar essas pessoas, já que, verdade seja dita, sabemos que elas vivem de acordo com o que conheceram em sua terra natal. Sabemos que a realidade social brasileira é complicada, onde o honesto e correto é tido como besta e sucesso, não raramente, depende de jogo de cintura, contato com as pessoas certas e até de pilantragem. Além disso, tem muita gente que se nega a amadurecer, que só quer as vantagens da vida adulta sem querer suas obrigações, um fenômeno que afeta bastante o Brasil, como trata este artigo que li esta semana e que recomendo: A geração dos imaturos para sempre.

O que quero é advertir sobre o problema, que é real, que está aí e só serve para duas coisas: para dificultar a vida de quem se comporta sem seriedade numa terra mais séria e para manchar a imagem de brasileiros no exterior.

Acho que faria bem se todos aprendêssemos desde cedo que na casa dos outros se deve comportar de acordo com as regras da casa. Igualmente bom seria se um dia, também no Brasil, a seriedade e as regras de convivência ganhassem uma importância maior do que elas têm hoje.

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