Em nosso esforço para tentar ter uma compreensão mais profunda da mente de um artista, somos capazes de olhar cada detalhe de suas vidas para compreender o que os tornou figuras tão importantes. Analisamos comportamentos e nos aprofundamos em seu passado, na esperança de encontrarmos algo com o qual possamos nos relacionar, um fragmento que nos conecte àquela pessoa que admiramos. Mas há momentos em que o que queremos é uma opinião criativa sobre como navegar neste mundo. A literatura nos permite pesquisar através da mente desses ícones, ensinando-nos mais sobre a vida do que sobre o artista.

A relação estranha e até mesmo revolucionária entre Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre tem sido bastante pesquisada ao longo dos anos. Eles eram parceiros de vida, mas nunca se casaram. Eles mantiveram um relacionamento “aberto”. Diz-se que Simone foi quem estabeleceu o acordo devido a certos fatores, tais como, mas não se limitando a, sua atração por mulheres (particularmente jovens). Mas além de seu papel como a mãe do existencialismo, como referido pelo The Guardian , este tipo de idéias é parte das razões pelas quais as manchetes anunciando sua morte dizia: “Mulheres, vocês devem tudo a ela!”

O que temos é um amor essencial, mas é uma boa ideia também vivenciarmos casos amorosos contingentes”, disse Sartre ao falar de sua parceira, embora juntos não estivessem constantemente na vida um do outro. Isso levou as pessoas a tentar investigar o raciocínio, a motivação e as conseqüências desse acordo para saber se era simplesmente um tipo de dinâmica artisticamente exclusiva ou se havia outra situação subjacente.

Simone deixou Sartre durante a década de 1940 e começou um caso com Nelson Algren, um escritor norte-americano. Eles estavam juntos há vários anos, mas se separaram porque ele queria um relacionamento mais estável.

Abaixo transcrevemos um trecho de uma carta escrita por Beauvoir em setembro de 1950, quando voltava para Paris. Ela expressa seu amor plenamente consciente de que este é o fim. Não só a mensagem nos mostra outro lado da escritora, mas também nos serve como uma lição de vida.

 

“Eu sou melhor em tristeza seca do que em raiva fria, por isso que os meus olhos permaneceram secos até agora, secos como peixe defumado.

Eu não estou triste. Atordoada, muito distante de mim mesma, não acreditando realmente que você está agora tão longe, tão longe, você está tão perto. Eu quero te dizer apenas duas coisas antes de ir, e então eu não irei falar mais sobre isso, prometo.

Primeiro, eu espero muito, eu quero e preciso ver você de novo, algum dia. Mas, lembre-se, por favor. Eu jamais pedirei para ver você – sem orgulho, pois eu não tenho isso com você, mas o nosso encontro irá significar alguma coisa apenas se você desejar isso. Então, eu esperarei, e quando você quiser, apenas diga. Não vou pensar que você me ama de novo, nem mesmo que você tem que dormir comigo, e nós não temos que ficar juntos por um longo período – apenas tem que ser como você sente isso, e quando você sente.

Não, eu não posso pensar que não vou vê-lo de novo. Eu perdi o seu amor, e isso foi (e é) doloroso, mas eu não devo perder você. De qualquer forma, você me deu tanto, Nelson, o que você me deu significa muito, e você nunca poderá pegar isso de volta. Então, sua ternura e amizade são tão preciosas para mim que eu ainda posso me sentir feliz e severamente grata quando eu olho para você dentro de mim. Eu espero que essa ternura e amizade nunca me abandonem.

Para mim, é desconcertante e eu sinto vergonha, mas é a única verdade: Eu amo você tanto quando eu cheguei em seus braços desapontados, com todo o meu ser e todo o meu coração sujo; eu não posso fazer menos. Mas eu não vou te incomodar, querido, e não faça cartas como um dever, apenas escreva quando sentir vontade, sabendo que isso me fará muito feliz.

Todas as palavras parecem bobas. Você parece estar tão perto, tão perto, deixe-me ficar perto de você também. E me permita, como no passado, ficar no meu próprio coração para sempre.”

Sua Simone”

 

Beauvoir

Mais do que simplesmente apresentar um amor genuíno, Simone claramente conhece as palavras perfeitas para terminar um relacionamento. A carta, apesar de emocional, garante que o recebedor permaneça calmo e sentirá um estranho tipo de esperança, pois a bola foi deixada em sua quadra, informando que eles são os únicos que podem decidir se o jogo vai continuar ou não. .

Ao iniciar a carta falando sobre si mesma, Simone termina em uma situação melancólica, assegurando que ela também é abalada pelo fim do relacionamento. Ela é honesta e inabalavelmente aceita que ela se sente diferente. Mas ela também declara Nelson ser distante mas próximo, proporcionando uma reviravolta poética antes de estabelecer os dois fatos que criam um “futuro” desejado.

Ela nunca diz a razão pela qual gostaria de se encontrar novamente. Ela simplesmente estabelece o que quer, lamenta de todo o coração o que aconteceu e coloca a decisão em suas mãos. Sua inteligência fica à frente de seus próprios pensamentos, pois ela tem certeza de que ele não pensará que precisa de algo dela. É nesse momento em que Simone esclarece o fato de que, embora a decisão seja sua, ela deseja que ele a peça em algum momento.

Qualquer outra pessoa, ao perceber que está no final de um relacionamento, pode optar por esquecer de ver aquela pessoa novamente, mas Simone não. Ela vê a beleza do que foi e como isso moldou sua vida. Ela termina com uma confissão absolutamente poética: ela ainda o ama e espera continuar lendo suas palavras, sem que ele se sinta obrigado a escrevê-las.

Não só a carta de Simone é um vislumbre de sua mente e espaço pessoal; também nos lembra que todos os rompimentos são terríveis ou precisam ser. Ela nos ensina que às vezes devemos apenas aceitar que as coisas acabem. Além da compreensão desse conceito também é de aceitação. Quando um relacionamento é transcendental, tem momentos incríveis que ninguém pode apagar. Eles podem ser esquecidos, mas já se tornaram parte da nossa história.

Simone não apenas mantém uma honestidade calma, mas está completamente aberta para Nelson e para si mesma, enquanto expressa seus sentimentos. Ela o ama e lamenta profundamente o que está acontecendo, mas entende que é um processo necessário. Talvez eles se encontrem novamente algum dia, uma vez que o ressentimento e a raiva passem. Então eles vão ver o relacionamento do lado de fora, como uma linda memória.

O final é apenas outra parte. Por que não transformá-lo em algo de beleza também?

A carta se insinua em nossa curiosidade em relação aos sentimentos da escritora e nos permite espiar pelo buraco da fechadura a funcionalidade de seu relacionamento com Sartre. Mas as palavras de Simone nos mostram um lado diferente não só dela, mas da humanidade.

 

 

Traduzido de Cultura Colectiva

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