Jorge Luis Borges, o grande mestre argentino tanto da literatura filosófica quanto da fantasia, sobre o qual escreveu o Nobel JM Coetzee : “Ele, mais do que ninguém, renovou a linguagem da ficção”, produziu pouca arte visual.

Após deterioração progressiva de sua visão, ele ficou totalmente cego aos 55 anos. A única obra sobrevivente da qual tenho conhecimento é esta representação primitiva e apropriadamente fantástica de um tigre. Incluo porque é de Borges e pelo significado que o tigre tinha para ele.

Na minha infância fui um devoto fervoroso do tigre: não o jaguar, o “tigre” malhado dos emaranhados amazônicos e das ilhas de vegetação que flutuam pelo Paraná, mas aquele tigre rajado, asiático, real, que só pode ser enfrentado por um homem de guerra, em um castelo em cima de um elefante. Eu costumava ficar indefinidamente diante de uma das jaulas do zoológico; Julguei vastas enciclopédias e livros de história natural pelo esplendor de seus tigres. (Ainda me lembro daquelas ilustrações: eu que não consigo lembrar direito a testa ou o sorriso de uma mulher.) A infância passou, e os tigres e minha paixão por eles envelheceram, mas ainda estão em meus sonhos. Nesse nível submerso ou caótico, eles continuam prevalecendo. E assim, enquanto durmo, algum sonho me seduz e, de repente, sei que estou sonhando. Então penso: isto é um sonho, uma pura diversão da minha vontade;

Oh, incompetência! Nunca meus sonhos podem gerar a fera que anseio. O tigre aparece de fato, mas empalhado ou frágil, ou com variações impuras de forma, ou de tamanho implausível, ou muito fugaz, ou com um toque do cachorro ou do pássaro.

O desenho condiz com a imprecisão de suas imagens oníricas: “Ai, incompetência! Nunca meus sonhos podem gerar a fera que anseio. O tigre realmente aparece, mas empalhado ou frágil, ou com variações impuras de forma, ou de tamanho implausível, ou muito fugaz, ou com um toque do cachorro ou do pássaro. ”

O Ouro dos Tigres – Jorge Luís Borges – 1972

Na hora do amarelecer do ocaso
quantas vezes me vi olhando
o poderoso tigre de Bengala
ir e vir pelo predestinado caminho
por trás das barras de ferro,
sem suspeitar ser sua prisão.
Depois vieram outros tigres,
o tigre de fogo de Blake;
depois vieram outros ouros,
o metal amoroso que era Zeus,
o anel que a cada nove noites
gera nove anéis e estes, nove,
sem fim.
Com os anos foram deixando-me
as outras belas cores
e agora só me resta
uma vaga luz, a inexplicável sombra
e o outro do princípio.

Ó pores de sol, ó tigres, ó fulgores
do mito e da épica,

ó um ouro mais precioso, teu cabelo
por que anseiam estas mãos.

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