A história de João de Santo Cristo é muito parecida com a de jovens brasileiros que vão para grandes centros, não conseguem dinheiro trabalhando e veem no tráfico uma forma de obter fama e dinheiro, no final, acabam perseguidos e mortos por outros traficantes.

Renato Russo dizia que Faroeste Caboclo é uma mistura de músicas de Raul Seixas com Domingo no parque, de Gilberto Gil. Talvez Russo dizia isso porque tanto Raul, quanto Gil faziam canções contestadoras, mas realistas.

Mas qual é a verdadeira história de Faroeste Caboclo?

Em entrevista concedida a Leoni, em 1995, para o livro Letra, Música e Outras Conversas(que está fora de catálogo, mas deve ganhar segunda edição em breve), Renato Russo explicou como surgiu a música que acabou se transformando no filme que entrou em cartaz recentemente, protagonizado por Fabrício Boliveira e Ísis Valverde. E revelou também que nutria o sonho de que aquela canção épica, com 9 minutos e 10 segundos de duração, um dia fosse transformada em filme.

Renato: ‘Faroeste Caboclo’ escrevi em duas tardes sem mudar uma vírgula. Foi: ‘Não tinha medo o tal João de Santo Cristo…’ e foi embora.

Leoni: Você não imaginou os personagens antes?

Renato: Não. Eram coisas que mesmo sem querer, sem perceber, já vinha trabalhando há muito tempo e na hora que vai escrever vêm direto. Eu sei porque foi fácil. Ela tem um ritmo muito fácil na língua portuguesa. É em cima da divisão do improviso do repente.

Leoni: O enredo também foi improvisado? Você saiu escrevendo e as ideias foram vindo?

Renato: As coisas foram aparecendo por causa das rimas. Se eu falo do professor, ele tem que parar em Salvador. Se fosse outra rima ele ia parar em outro lugar. Basicamente já sabia que tipo de história ia ser. É aquela mitologia do herói, James Dean, rebelde sem causa.

Leoni: Parece um conto adaptado.

Renato: Mas se prestar atenção tem um montão de falhas. Como é cantado as pessoas não percebem. Uma vez, o pessoal da R. Farias (produtora de cinema) queria fazer um filme. Foi quando deu pra perceber como tem furo na história. Parece que faz sentido, mas por que cargas d’água esse homem encontra esse boiadeiro em Salvador? Que história é essa de trocar, ‘eu fico aqui, você vai pra Brasília’? Por causa da filha? Por que Maria Lúcia fica com o Jeremias? Não dá pra entender! Você tem que bolar sua própria história. O máximo a que cheguei é que ela era uma viciadona e o Jeremias era tão mau que disse: ‘Se você não casar comigo vou matar o João’. Mas também não justifica. E o Santo Cristo é um banana? A menina é apaixonada por ele e ele fica andando com o Pablo pra cima e pra baixo. Ele é gay? Tem uma porção de coisas na história que não batem, mas quando a gente ouve no rádio funciona muito bem.

Nunca saberemos a opinião de Renato Russo sobre a adaptação cinematográfica dirigida por René Sampaio, e tampouco sobre Somos Tão Jovens, o filme de Antônio Carlos Fontoura que levou mais de 1,5 milhão de espectadores aos cinemas, com um surpreendente Thiago Mendonça no papel do vocalista da Legião Urbana. Quem assistiu à cinebiografia certamente lembra de Flávio Lemos, retratado no filme como objeto de paixão platônica de Renato, e que foi um dos integrantes do Aborto Elétrico antes de integrar o Capital Inicial junto com seu irmão Fê Lemos. Pois bem: em entrevista concedida a Cláudia de Castro Lima para a revista Flashback, em 2004, Flávio afirmou que “Faroeste Caboclo” foi inspirada por ele e por uma prima de Renato, Mariana. E que João de Santo Cristo seria um alterego do próprio Renato Russo nesse bizarro triângulo amoroso. Será? Confiram abaixo um trecho escaneado dessa matéria da Flashback.

FONTEPensador Anônimo
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