Via Fronteiras do Pensamento

Edgar Morin, um dos mais populares pensadores franceses contemporâneos, fala sobre a “política da humanidade”: um conceito valoroso e que conversa com o momento em que vivemos. Nele, o filósofo propõe o ideal de uma simbiose, de recuperar valores importantes e agregá-los a todo tipo de progresso já alcançado.

Em meio à pandemia do Coronavírus, a situação em que nos encontramos é de extrema importância da solidariedade e do senso coletivo, começando pelos cuidados individuais. Ao mesmo tempo, utilizamos as tecnologias a favor da humanidade. Ou seja, conforme afirmou Morin, a ideia é unir o melhor do desenvolvimento, e respeitar as qualidades e valores de diferentes culturas.

EDGAR MORIN | Certos ecologistas defendem a necessidade de um decrescimento, e é verdade, é preciso que haja um decrescimento das energias poluentes, de uma economia de produtos totalmente superficiais, de valia mitológica e ilusória, que prometem a saúde, a felicidade, a juventude, a sedução etc.

É preciso que decresça a intoxicação consumista que assola a classe média e a elite e, em contrapartida, que cresçam as possibilidades de consumo das populações miseráveis e pobres.

É preciso combinar crescimento e decrescimento, ou seja, o que deve crescer com o que deve decrescer — e o que deve crescer é uma economia verde, isto é, de energia limpa, uma economia que transforma as cidades, que as deixa saudáveis e humanizadas.

Portanto, é preciso combinar globalização e desglobalização, desenvolvimento e envolvimento, crescimento e decrescimento — e isso, a meu ver, substituindo a palavra desenvolvimento por ‘política da humanidade’.

Por que essa substituição? Porque o desenvolvimento é uma fórmula padrão que é aplicada a povos e culturas que já possuem suas próprias riquezas.

É um erro crer que culturas fundadas sobre a tradição oral, isto é, desprovidas da escrita, sejam reduzidas à carência, ao analfabetismo. Não, elas não conhecem o alfabeto, mas elas possuem tesouros culturais milenares — e digo isso também em relação às pequenas sociedades indígenas do Brasil, principalmente da Amazônia.

Assim, uma política da humanidade é uma política que sabe fazer a simbiose entre as qualidades que se originam do Ocidente, isto é, da globalização, e as qualidades próprias às culturas tradicionais.

Essas culturas possuem uma conexão, um vínculo com a natureza que nós buscamos reencontrar no mundo ocidental; elas possuem uma noção de solidariedade que nós já perdemos. Porém, elas possuem também dogmatismos, autoritarismos, políticas de isolamento. A questão é, portanto, fazer essa simbiose.

Num conjunto, uma política da humanidade seria uma política capaz de efetuar, em cada país, um reencontro entre o melhor de sua própria cultura e das culturas estrangeiras. O que, de certo modo, já está começando, pois é curioso que, no Ocidente, há tamanha insatisfação moral, psíquica, que se nota um apelo não apenas aos divãs dos psicanalistas e psicoterapeutas, mas também à yoga, ao budismo zen, às formas asiáticas de espiritualidade, para se reencontrar uma harmonia consigo mesmo, com seu próprio corpo, com seu próprio espírito.

A ideia de uma política da humanidade é a de uma política que une o melhor do desenvolvimento, mas, eu repito, que faz essa simbiose e que respeita as qualidades e os valores de diferentes culturas.

Artigo publicado originalmente no site do Fronteiras do Pensamento

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