A psicanalista e professora da FAAP, Maria Lúcia Homem, conversa um pouco sobre a postura de Clarice Lispector e toda força da palavra que a escritora dissertava.

Assista ao vídeo ou leia a transcrição logo abaixo

 

“A vida é um soco no estômago e a Clarice, sem dúvida, tem uma postura desse temor. Acho que se eu fosse usar uma palavra para definir a posição da Clarice seria “ela não teme”, ela não tem medo de dizer; tanto que naquele famoso último vídeo dela para a Cultura, ela diz “que eu saiba, eu não fiz nenhuma concessão”. E ela levou isso às últimas consequências. Então, nem só a vida é um soco no estômago, como aquilo que eu escrevo eu quero que chegue para você, leitor, como um soco no estômago.

E, para em português mais simples ainda, eu estou te dando uma porrada… é isso que eu estou fazendo. Eu não estou fazendo menos que isso. Porque a vida é assim e a palavra que importa é essa. Então, eu quero que algo doa, como dói em mim. É como se a verdade última da vida fosse um soco, fosse algo que te tira do prumo, te tira do eixo e só assim você pode ser uma outra pessoa.

Eu não acredito em transformação açucarada. Claro, eu trabalho com isso, eu vivo a matéria dessa possível transformação que existe, jamais me aliaria a um discurso que diz ” o ser humano é assim, foi criado assim, a natureza é estática, a natureza humana é má”, isso me impedia profundamente. Mas é simples você ser outra coisa ou você próprio deixar ser aquilo que você é e nem você suporta é dificílimo e é o trabalho e dor, então numa sessão, o que está em jogo, o que é dito e o que é sentido também tem algo, como diria Freud, é, tem várias instâncias de conteúdos e de fatos, então conteúdo e afeto são os dois pilares básicos da mente da subjetividade.

A gente não é só uma cognição, a gente é essa sensação. A gente precisa levar um susto para que a gente fale: opa! quem sou mesmo? O que é o mundo? por exemplo, um pre conceito. Você não desmonta um conceito que está anterior à vivência sem ter uma outra vivência, de preferência difícil, que diga para você “teu mundo caiu”. E é muito bom, Quando você chega numa análise, por exemplo, e diz: meu mundo caiu, eu falo, ótimo, então você veio no lugar certo, porque agora a gente vai começar o que interessa, porque algo tem que ruir. Normalmente a gente sabe o que está desmontado, o eu. Aí, para ser mais precisa, a imagem narcísica do eu, uma configuração agradável, interessante, idealizada de ser.

Então eu diria que a Clarice é a anti autoajuda que ajuda. Qual é a ajuda eficaz? é aquela que, de alguma maneira, não vai ter esse discurso de massagear a mente tipo: Você pode, você consegue, todo um bla bla bla que pode estar na moda, pode vender milhões, pode te mostrar a força da magia do amor, do bem. è um saco gigantesco e eu estou de alguma maneira cometendo o sacrilégio de colocar tudo no mesmo lugar, mas há diferenças e a gente pode debater melhor, porém, grosso modo, uma certa narrativa, que aliás é muito simplista de conexão com felicidade, bondade, o bem, o amor, a luz, a paz, a graça… uma coisa assim: vamos pela força do pensamento chegar numa energia boa? e não é assim, não é simples assim, não funciona.

Eu tenho décadas de clínica e nunca vi você mentalizar o bem e acontecer o bem. Então aquilo que te toca, normalmente, é que talvez ouse chegar no mal, naquilo que te faça mal, te faça doer, aí tem uma verdade. A verdade não necessariamente é da ordem do aprazível, nem necessariamente é da ordem do imaginário do bem. Como se pode desmontar essa fantasia quase infantil de supor um universo cor de rosa. Esse universo não é assim. Não só indivíduos e sociedade, um velho embate, mas uma relação sujeito sujeito. Você conflita com você mesmo. E se você não conflitasse com você mesmo, qual era a graça? Se você soubesse, “muito bem, estou tranquilo, eu tenho tal posicionamento, não quero dinheiro , não quero reconhecimento, não quero fama, sucesso, eu não tenho preconceito de nada, não domino ninguém, eu sou o homem ou eu sou mulher”, a gente não sabe muito bem nada disso, a gente tem ambiguidades constituintes, a gente tem momentos que adora está no lugar de alguma dominação. Alguma forma de domínio sobre o outro não é interessante, mas se a gente não assume que tem um gozo ali e que às vezes é o conflito comigo mesmo, mais masculino, mais feminino.

Se você abrir mão de uma matriz transcendental que te diria: há dois tipos de sementes, há dois tipos de cores, há dois tipos de naturezas, cada um recebeu tal… se a gente abrir mão de um paradigma que seria um ordenador maravilhoso, incrível, se fosse só dois, se fosse só binários, estaria excelente , a vida seria muito mais tranquila, ótimo, tudo bem. Então, a Clarice, ela vai navegar nas águas obscuras, nas águas ambíguas, não só das coisas como da própria escrita, da própria anunciação na forma de dizer. Ela vai dizer de uma maneira que ela própria é escorregadia, ela diz. Por isso eu fiz uma tese inteira sobre isso. O título é “No Limiar do Silêncio e da Letra”, como na própria letra, na materialidade da linguagem ela vai provocar o sentido e o não sentido, tanto que tem muita gente que vai dizer eu não entendo, Clarisse é muito difícil, ou eu não consigo entrar. E outras pessoas vão dizer: É simplesmente eu, é simplesmente tudo, ou, eu não preciso muito raciocinar, eu sou isso, eu sinto isso. Tanto que tem uma fala da Clarice que é ótima que ela recebeu um professor que chegou pra ela e falou justamente isso ‘eu não entendo muito bem os seus textos’, e ela disse, ao mesmo tempo eu recebi uma carta de uma menina de treze anos que falou ‘finalmente eu me reconheço em algum lugar. O que você escreve tem a ver com aquilo que eu vivo.’

A verdade é dura, é ambígua, mas é só ela que ecoa no fundo.

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