Em um mundo repleto de conflitos e mudanças, saber ouvir verdadeiramente o que o outro tem a dizer e respeitar um ponto de vista diferente daquele que temos é condição cada vez mais rara e necessária à construção do diálogo e da paz. Para o filósofo e educador Mario Sergio Cortella, prestar atenção no outro de maneira sincera é um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações.

“Como estamos acostumados ao que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo”, afirma. Somente quando estamos abertos às novas ideias, principalmente àquelas diferentes das nossas, conseguimos crescer. Nesse artigo, extraído do livro “O que a vida me ensinou”, Cortella mostra que estar disposto a acolher a discordância é o primeiro passo para demonstrar que nos importamos com os outros e, assim, evitar conflitos. Veja o artigo:

Para lidar com a mudança, você precisa, sobretudo, prestar atenção nas pessoas. Paulo Freire, o brasileiro que mais acumulou títulos de doutor honoris causa na história do nosso País, também era um mestre nisso. Quando alguém vinha falar com ele, um homem mundialmente famoso, Paulo não só parava para escutar como dava toda a atenção do mundo. Não raro, colocava a mão no ombro do interlocutor para criar uma condição de igualdade, um vínculo, uma conexão física para materializar o que Aristóteles chamou de amizade: dois corpos numa única alma.

Paulo Freire cultivava uma disposição de aprender com o outro. Era um homem da ética, e não da pequena ética, da mera etiqueta (sim, etiqueta é da pequena ética, assim como camisetas são pequenas camisas).

Prestar atenção no outro de maneira sincera, eis um aprendizado que devemos procurar desenvolver nas nossas relações. Como estamos acostumados ao que somos, o outro é que nos ensina e nos liberta das nossas amarras. Mas, para avançarmos, é preciso ser capaz de acolher aquele que não concorda comigo.

A concordância faz com que permaneçamos estacionados. A discordância faz com que cresçamos. A palavra concordância vem de cor, coração, e significa unir os corações. Discordar, por sua vez, é promover a separação dos corações, algo que possibilita o desenvolvimento pessoal. Assim, para estimular o crescimento do outro e de si mesmo, Paulo Freire primeiro acolhia o seu interlocutor, colocava a mão em seu ombro, estabelecendo uma ligação. Depois, quando fosse o caso, discordava, sempre aberto a acolher em si a discordância do outro e, portanto, a aprender.

Desse modo, ao prestar atenção naquilo que não era o óbvio nele mesmo, ele conseguia avançar. Seguindo esse princípio, nos seus 76 anos de vida, Paulo Freire nunca parou de crescer.

Acolher a discordância foi justamente uma das mais importantes lições que recebi do meu pai, grande torcedor do time do São Paulo. Pais geralmente gostam que os filhos torçam para o mesmo time. Mas eu me bandeei para o Santos, um time que não é óbvio nem em seu emblema (conhecido como peixe, seu símbolo é uma baleia – um mamífero). Curiosamente, nenhum dos meus filhos é santista. Todos torcem para o São Paulo. Da mesma maneira que jamais interferi na preferência futebolística dos meus filhos, meu pai não só jamais questionou a minha escolha como a aprovava e a apoiava.

Para demonstrar com clareza que acolhia a nossa discordância, ele me levava ao estádio quando o São Paulo jogava contra o Santos. E era capaz de aplaudir o Santos! Respeitar o time de futebol alheio é uma maneira soberba de ensinar a respeitar e a acolher as ideias, as posições, as perspectivas do outro.

(…) A anulação do outro é o ápice do confronto e o confronto deve ser evitado a todo custo. Isso vale para o terreno das ideias, da convivência, como também para o casamento.

Autor: Mario Sergio Cortella – filósofo, mestre e doutor em Educação
Texto de abertura: Fernando Ferragino

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