Por Maria Laura López / JORNAL DA USP

“O homem é um animal político.” Essa frase, escrita pelo filósofo grego Aristóteles na sua Política e repetida tantas vezes ao longo da história por diversos autores, mostra como a necessidade de socialização do ser humano é consenso. Assim também, sabe-se como são prejudiciais a solidão e o isolamento social, a exemplo da prisão, do exílio e da quarentena, como a que vivemos hoje por causa do coronavírus. No entanto, foi justamente por causa de momentos como esse que grandes obras foram produzidas.

No Brasil, o maior exemplo talvez seja o escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953), que, embora não tenha escrito em confinamento, contou depois, em Memórias do Cárcere, o que viveu como prisioneiro de Getúlio Vargas. “Ele foi preso em março de 1936, sem nenhuma acusação formal, e só saiu em janeiro de 1937”, conta o professor Fábio Cesar Alves, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. “Por ser um opositor político na época da ditadura Vargas, Graciliano, que já era um escritor consagrado, passou por várias prisões, onde foi encarcerado com presos comuns.”

De acordo com o professor, essa experiência permitiu ao escritor repensar o Estado brasileiro pela perspectiva de quem sempre conviveu com esse caráter brutal da justiça no Brasil. “Ele vê o lugar dos pobres na sociedade, os equívocos do Partido Comunista, e escreve o livro depois, retomando tudo isso, embebido de uma nova orientação política, transformada a partir daquela vivência”, afirma Alves.

As produções posteriores também foram afetadas pelo encarceramento, acrescenta o professor. “Vidas Secas trata de um mundo concentracionário onde, além da seca, a família também é esmagada pelo Estado. Em Infância, ele recupera a memória do menino acossado pela educação patriarcal e pela justiça burguesa”, diz Alves. Para ele, a experiência da prisão foi muito importante na trajetória de Graciliano, porque o colocou em contato com um mundo do qual, até então, era distante. “É paradoxal, mas foi justamente essa retirada forçada que permitiu a ele ver melhor a situação da sociedade brasileira.”

O escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960), por sua vez, experimentou o isolamento por conta da tuberculose que tinha desde os 17 anos. “Essa distância imposta pela doença vai também ser imposta pela Segunda Guerra e o escritor vai se habituar a construir um espaço solitário”, afirma Raphael Araujo, doutor em Letras pela USP e tradutor de Camus. “Durante uma parte importante da redação de A Peste, Camus está sozinho e recluso. Ele projeta parte do sentimento de isolamento dos franceses nos prisioneiros da peste na cidade de Orã, onde se passa a história.”

O livro, produzido nessas circunstâncias e logo após o surto de peste bubônica que atingiu a Argélia, em 1944, voltou à lista de livros mais vendidos nas últimas semanas na Europa. A narrativa simboliza a luta de um médico envolvido nos esforços para combater a epidemia que causou desespero na cidade. Considerando a pandemia de coronavírus que assola o mundo hoje, a obra não poderia ser mais atual.

Além desses nomes, ainda é possível citar a artista mexicana Frida Kahlo (1907-1954), que iniciou sua trajetória como pintora no confinamento de sua própria cama, depois de um acidente que sofreu aos 18 anos. Foram várias cirurgias para a reconstrução de partes do seu corpo, e meses de recuperação. Naquele momento, a arte surgiu como uma válvula de escape e ela começou a pintar autorretratos com a ajuda do espelho, que ficava logo à sua frente. Coluna Partida, uma das obras que pintou nesse período, retrata o colete ortopédico que precisava usar.

O dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616) foi outro autor que produziu uma obra-prima durante o isolamento, quando estava de quarentena por conta da peste bubônica que atingiu Londres entre 1603 e 1613. Nessa época, vários teatros fecharam suas portas por vários meses, mas isso coincidiu com o apogeu da escrita de Shakespeare, levando-o a escrever a peça O Rei Lear em 1605. O texto representa o caos vivido naquele momento e, talvez, até um pouco do que o mundo enfrenta agora, com o coronavírus.

O épico romance Os Miseráveis também foi escrito em reclusão, mas por conta da oposição que seu autor, o escritor francês Victor Hugo (1802-1885), fazia ao império de Napoleão III. Hugo foi exilado de sua terra natal e, depois, banido da Bélgica e da ilha de Jersey, só encontrando asilo em Guernsey. Ele viveu nessa ilha britânica por 15 anos, a 48 quilômetros da costa da Normandia, na França, e passou lá o período mais produtivo de sua vida, ainda que com muitas dificuldades. “O exílio não me retirou somente da França, mas quase me exilou da Terra”, disse ele em uma carta.

Isolados pelo vírus

A psicanalista Sandra Leticia Berta, mestre e doutora pelo Instituto de Psicologia da USP, alerta para a necessidade de diferenciar exílio e isolamento. “O exilado é exilado porque os outros não são, ele é sozinho, não tem como generalizar o exílio. O que estamos vivendo agora é um isolamento coletivo, estamos isolados e conectados”, afirma ela. Mas, de acordo com Sandra, existem alguns denominadores comuns entre as situações, como o perigo, que se apresenta tanto na forma do Estado de exceção quanto na do vírus.

Ainda segundo ela, lidar com a morte era algo muito presente nos exilados de regimes ditatoriais, que viam seus companheiros de luta morrerem, e tem se tornado algo cada vez mais comum com o avanço da covid-19 pelo mundo. “Quando você vive muitos lutos, há certas consequências. Mas, com tantos mortos, talvez não tenhamos lugar para o luto agora e as consequências disso podem ser diversas”, diz Sandra.

“Não podemos generalizar os efeitos dessa crise porque é tudo muito novo. Mas muitos relatam angústia por não poder encontrar os entes queridos, sendo privados do encontro corpo a corpo”, afirma a psicanalista sobre a dificuldade de lidar com algo que faz dos encontros e dos gestos de afeto uma ameaça. E é ainda mais complicado quando se trata de proporções mundiais. “O trauma tem diferentes manifestações, mas hoje ele tem uma dimensão global. Contudo, o trauma exige considerar a dimensão singular e os laços.”

Tendo tudo isso em vista, é de se esperar que a pandemia do coronavírus transforme a vida das pessoas ao redor do mundo. O que não quer dizer que os próximos Albert Camus, Frida Kahlo e Victor Hugo vão aparecer. Entretanto, a perspectiva de que coisas boas podem surgir neste período ajuda a renovar as esperanças.

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