O século 19 falava na morte de Deus e o século 20 enfatizou o vazio de sentido. A fé customizada e pouco desafiadora dominou o século 21 ao lado da emersão de uma nuvem tecnológica que paira sobre todos como o espaço intangível da sociabilidade e da existência. Seria um risco fenomenológico classificar a internet como o novo espaço do sagrado e do sentido? Quem seria o homem religioso do mundo líquido? Qual o espaço específico do Cristianismo no “Admirável mundo novo”?

Nesse fragmento do Café Filosófico – Fé Líquida, com Leandro karnal (vídeo na íntegra aqui)  o professor fala da customização da fé, de como Deus é entendido no homem contemporâneo. Assista o vídeo ou leia a transcrição logo abaixo.

 

O grande fenômeno de hoje não é o esvaziamento das religiões, que vão bem,
obrigado. Não é o fenômeno da morte de Deus que foi superado . O grande
fenômeno atual, com qual eu vou dialogar é a Customização da fé. Se eu disse
que parte da filosofia abandonou a ideia de uma verdade fora do discurso, parte
dos religiosos abandonou a existência de um Deus fora da sua própria biografia.
O que significa isso? parece dominar a anti-kenosis. Ao invés do esvaziamento
humano para o preenchimento da plenitude divina, (vou dialogar aqui
naturalmente com o cristianismo por ser dominante no Brasil) há um esforço da
minha subjetividade me preencher, dos meus desejos, da minha consciência.

Como funciona essa anti kenosis? Se eu quero prosperidade, Deus também
quer. Se eu quero que o meu candidato vença, Deus está ao meu lado. Se eu
quero que os meus inimigos pereçam, Deus abençoa. Deus sempre quer o que
eu quero. Deus nunca me contraria, nunca pensa diferente de mim, nunca realiza
o terceiro dos sete pedidos encontrados no Pai-Nosso: “Seja feita a vossa
vontade, assim na Terra como no céu” .

Essa categoria de Deus mereceria o título de “amigo imaginário” , ou seja, ao
invés de eu pensar no radicalmente outro, no radicalmente oposto a tudo que
existe, eu vou pensar no radicalmente eu, a anti kenosis.

Não estou assumindo o papel dos profetas do Antigo Testamento ou dos
moralistas cristãos, especialmente da Idade moderna. Aponto a incoerência
entre o plano divino e humano, entre o texto sagrado e a minha biografia, ou
como quer Agostinho, entre a cidade de Deus e a cidade dos homens. O que eu
indico é bem mais grave e é típico de um mundo líquido, de uma fé líquida, de
uma religiosidade contemporânea.

Via canal Saber Filosófico

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