Por Noemi Jaffe

Falar português é uma bênção e uma maldição. Uma bênção pela beleza da língua, pela literatura que produz e pelas culturas que representa, no Brasil, Portugal, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Goa e Macau. Mas uma maldição porque – posso dizer com certeza – se um autor como Guimarães Rosa tivesse escrito seus livros em inglês ou francês, hoje seria tão importante para a literatura mundial quanto, digamos, James Joyce ou Marcel Proust.

Junto com Machado de Assis, escritor do final do século 19, Guimarães Rosa é considerado, por qualquer crítico ou pesquisador brasileiro sério, o melhor escritor da literatura brasileira. E costumo dizer que é uma luta em que ambos os contendores são, felizmente para nós, iguais vencedores, só que com uma enorme diferença entre eles: enquanto Machado de Assis consegue encontrar a hipocrisia e o mal onde qualquer um só veria o verdadeiro e o bem, Guimarães Rosa, por sua vez, sempre revela amor e transcendência onde todos só percebem mentiras e traição.

INVENTOU UMA NOVA LÍNGUA

Guimarães Rosa nasceu no interior de Minas Gerais, em 1908, e morreu no Rio de Janeiro em 1967, poucos dias depois de ser eleito para a Academia Brasileira de Letras, indicação que ele recusava há muito tempo, porque usava dizer que sabia que, assim que isso acontecesse, ele morreria. Mal dito e feito, como com muitas outras histórias incríveis que aconteceram ao longo de sua vida.

Médico e depois diplomata, primeiro viajou pelo sertão mineiro cuidando de pacientes, depois se tornou cônsul do Brasil em Hamburgo, na Alemanha, durante os anos de guerra, onde ele e sua esposa, Aracy de Carvalho, bravamente ajudou inúmeros judeus a fugir do país para o Brasil.

Pode-se dizer que Guimarães Rosa inventou uma nova língua, extraída principalmente do português – claro – mas também das outras 19 línguas que falava e, mais do que tudo, de poder captar a poesia e as peculiaridades do sertanejo.“, A língua falada no interior profundo de Minas Gerais, um dos maiores estados do Brasil. Combinando folclore, erudição, tradições orais, sagas islandesas, o grego e o latim da poesia clássica e das tragédias, Dante, Shakespeare e tantos outros, além de criar uma vasta quantidade de neologismos –há um dicionário totalmente dedicado ao seu próprio vocabulário– Guimarães Rosa criou um ritmo e uma sintaxe próprios, onde cada frase se assemelha a um verso, e onde nos aprofundamos nos mistérios e na filosofia dos pré-socráticos, na alquimia e na batalha entre a razão e a fé.

MÍSTICO NÃO RELIGIOSO

Seu primeiro livro, publicado em 1946, intitulado Sagarana , já representa o que mais tarde seria chamado de “regionalismo universal”, título não totalmente aceito por toda a crítica brasileira. Certo ou errado, este nome é pelo menos conveniente para retratar uma parte de sua engenhosidade: ser extremamente particular em termos de construção de personagem, enredo, linguagem e oralidade, mas, ao mesmo tempo, como dizia Tolstoi, universal, para a amplitude e profundidade das questões que estão sendo abordadas, como ganância, tempo e a luta eterna entre o céu e o inferno.

Guimarães Rosa era extremamente místico, o que não é propriamente religioso, pelo contrário. Seu livro mais importante, Grande Sertão: Veredas , por exemplo, traz, em seu próprio título, uma combinação de três culturas e crenças, por assim dizer: “ser” (ou ser, herdado da cultura e filosofia grega), Tao ( da tradição japonesa) e Vedas (o livro do misticismo hindu). E, o livro que acabamos de mencionar, Sagarana, também se refere às sagas islandesas e a uma palavra indígena, “rana”, que significa “como um”. Ou melhor, o livro que vamos ler, “sagarana”, significa “como uma saga”, mas com o detalhe de que implicitamente mescla índios brasileiros com tradições medievais islandesas. Seu credo é uma combinação de todos os credos que estudou e, após sua morte, as pessoas ficaram maravilhadas ao encontrar, em sua biblioteca, não apenas livros de literatura, ciência e filosofia, mas também inúmeros livros sobre egiptologia, numerologia, cabala, alquimia e outras ciências ocultas.

IMMANÊNCIA TRANSCENDENTAL

Outra tentativa possível de definir sua obra é chamá-la de “imanência transcendental”, uma contradição, sim, mas de tipo intencional. Uma de suas frases mais conhecidas –e criou muitas– é “onde não se passa nada, acontece um milagre”. Claro, porque um milagre, para ele, é simplesmente o fato de podermos nos mover, beber água, nos reconhecer, viajar de trem ou escolher o que gostamos de comer. Não precisa ser extraordinário para ser um milagre, mas sua habilidade é transformar qualquer ato comum em algo único e até sobrenatural.

Em um de seus mais belos contos, por exemplo, do livro Primeira Estórias(Histórias iniciais) –e como é difícil escrever em outro idioma e não poder contar os segredos contidos em cada título e palavra de seus livros– intitula-se “Soroco, sua mãe, sua filha” (Soroco, sua mãe, sua filha), um homem chamado Soroco caminha em direção à estação ferroviária de uma cidade muito pequena, levando sua mãe e sua filha, ambas loucas, para serem levadas ao hospital psiquiátrico mais próximo. As duas mulheres estão vestidas com trapos coloridos e cantam palavras que ninguém consegue entender, mas que soam maravilhosamente estranhas. O pessoal da cidade segue os três até que as duas mulheres sejam colocadas no trem que as levará a um lugar –nós todos conhecemos no Brasil– que pode ser comparado ao inferno na terra, para onde as pessoas são levadas para serem tratadas como animais. “Para os pobres, os lugares são mais distantes”.

Depois que Soroco os deixa no trem, ele está pronto para voltar para casa e as pessoas começam a segui-lo. De repente, ele começa a repetir a letra e a música que sua mãe e filha cantavam, apesar de não entender uma palavra do que significam. E, surpreendentemente, toda a cidade o acompanha, num gesto de compaixão, mas também de compartilhar o desconhecido, de deixar a verdade daquela loucura tomar conta de todos os que se preocupam com Soroco. E esse é exatamente o milagre para Guimarães Rosa, além da linguagem com que todos esses atos são narrados, indissociáveis ​​da história. Não é algo pertencente a fontes metafísicas ou divinas, mas ao próprio âmago da alma humana, à própria realidade do sertão.. E isso é o que pode ser chamado de transcendência imanente: a capacidade de reconhecer acontecimentos universais e espirituais nas coisas mais próximas. Sobretudo no livro Primeiras Estorias , pode-se dizer que todas as histórias seguem esta ideia de transcendência emergente da trivialidade. Este livro, aliás, começa e termina com duas histórias sobre um menino em Brasília, cidade que estava em construção na época e que, por sua vez, mudou totalmente a realidade contextual das regiões do entorno, trazendo-lhes urbanização e modernidade e, portanto, contribuindo para acabar com o tradicional mundo das superstições, da justiça oral e dos famosos “ jagunços”., parte importante da obra de Guimarães Rosa. Na primeira história, “As Margens da Felicidade”, um menino viaja para Brasília de avião e fica maravilhado com a viagem e a visão de um vaga-lume. Na última história, porém, o mesmo menino vivencia agonia e tristeza pela possibilidade de perder a mãe. A história do meio, refletindo a primeira e a segunda metade do livro, é significativamente chamada de “O Espelho”, uma história / ensaio filosófico onde um homem, após perder completamente seu reflexo no espelho, tenta recuperar sua alma interior.

O LIVRO QUE REVOLUCIONOU A LITERATURA BRASILEIRA

Em 1956, Rosa publicou sua obra mais importante, Grande Sertão: Veredas , livro que revolucionou a literatura brasileira. Riobaldo é o seu protagonista, e ele dirige a história de sua vida a um chamado médico, que pode ser interpretado como um alter ego do autor. Esse interlocutor nunca participa da história da epopéia, mas o simples fato de a história ser dirigida a ele é responsável por mudar a maneira de pensar e falar Riobaldo.

Riobaldo é um jagunço aposentado . Os Jagunços são homens –uma espécie de exército e guarda particular– que dedicam a vida ao serviço de um determinado fazendeiro e que estão em guerra constante com outras gangues. Eles seguem regras estritas de sua própria moralidade, justiça e vingança, tendo seus próprios hábitos linguísticos, seus rituais, comida e celebrações. Tudo entre eles é falado – nunca escrito – o que implica necessariamente extrema rigidez e organização: a honra é o seu valor principal.

Riobaldo conta a esse médico a história de uma batalha entre seu grupo e o grupo de um adversário muito forte, liderado por seu maior inimigo: Hermógenes. Ao longo das 600 páginas, o leitor percorre as paisagens extremas do sertão, sentindo fome, cansaço, sede e sofrendo todos os tipos de perigos, da natureza e de seus adversários. Nessa saga, Riobaldo é constantemente seguido por seu amigo mais fiel, Diadorim, cuja identidade é envolta por uma aura de mistério em todo o livro. No final, o leitor e mesmo Riobaldo, se deparam com uma revelação que ao mesmo tempo altera toda a compreensão do livro e seus significados filosóficos, culturais e literários, ao mesmo tempo que contribui para nos fazer compreender o contexto em que a história se deu. Lugar, colocar. É uma daquelas epifanias que criam uma espécie de maravilha que poucas obras de arte conseguem realizar.

Para chegar à posição de líder de sua gangue e conseguir vencer a batalha contra o inimigo, Riobaldo – como Fausto – faz um trato com o demônio, rendendo-lhe a alma. O livro, portanto, é também um questionamento da própria existência de Deus e do Diabo, em um lugar onde a fé católica é certamente tão sagrada quanto a própria vida. “ Sertão –dizem–, se você quer procurar, nunca encontra. De repente, por si só, quando a gente não espera, vem o Sertão ”. “Deus existe mesmo quando não existe Deus. Mas existe o diabo mesmo quando ele não existe ”. “O diabo existe e não existe. Essas melancolias ”.

A revolução que este livro instaura deve-se a muitos aspectos distintos e interligados: em primeiro lugar, a sua linguagem, coincidindo com a sua emissão, tão circular, inventiva e dinâmica como a própria vida das suas personagens e da sua paisagem. Mas também a profundidade e densidade de suas problematizações filosóficas e metafísicas, tudo na boca de um jagunço., cuja própria semelhança, embora improvável, é ainda mais penetrante por isso mesmo. Há também a crítica histórica e social do romance, retratando a decadência de uma paisagem, um modo de viver, um conjunto de valores e uma sociedade tradicional, que estão ameaçados pela construção da capital do Brasil, no centro de o país, que traz para a região todas as contradições de uma modernidade que, se traz os benefícios de mais emprego, alfabetização e industrialização, contém também todas as desvantagens de um fenômeno que – como quase tudo no Brasil – está se fazendo apressada, injusta e mantendo todos os privilégios das classes altas. Embora Guimarães Rosa não possa ser considerado um escritor cuja literatura se preocupa com questões sociológicas, sua visão simbólica e global dosertão implica também a profundidade com que essas transformações foram penetrando em seu modo de viver e em suas visões de mundo.

Criando uma série de obras – Sagarana, Primeiras Estórias, Grande Sertão: Veredas, Campo Geral, Tutameia, Estas Estórias, e outros – que, ao mesmo tempo que conta a história e a realidade de uma parte esquecida do Brasil, consegue também transformar a forma como o resto do país percebe a relação entre tema e linguagem, forma e matéria, Guimarães Rosa segue desafiando novas gerações de leitores e pesquisadores. É um mundo onde a literatura cria vida, onde a arte precede a realidade e onde as principais questões do ser e da humanidade se encontram nas histórias mínimas do cotidiano, como a do menino Miguilim, míope, cuja visão de mundo se transforma por um médico que lhe oferece um novo par de óculos. O mesmo se pode dizer de nós, leitores míopes, a quem novos óculos são constantemente oferecidos pela literatura de Guimarães Rosa.

Traduzido de glli-us.org/

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