Por Ricardo Flaitt

Qual o sentido da vida? Pergunta que o ser humano se faz há milênios e que esbarra em respostas palpáveis. Viver é um ir-e-vir com infinitos propósitos. Um caminhar em busca de algo que nem sempre o homem sabe o que é, nem no que vai dar.

Diante desse dilema, o escritor italiano Dino Buzzati, em “O Deserto dos Tártaros”, cria uma alegoria do homem diante da espera, da ausência de sentidos, das escolhas, do destino e dos rumos que a vida toma.

A história, adaptada para o cinema pelo diretor Valerio Zurlini, narra a história do jovem Giovanni Drogo, de 21 anos, que acaba de se tornar tenente do exército e é nomeado para a sua primeira missão, na Fortaleza Bastiani, localizada ao norte da Itália.

“A Fortaleza Bastiani é um posto avançado morto. Uma fronteira que dá para o nada. Para além da fortaleza há um deserto e depois o nada. O deserto dos Tártaros. Com certeza, atravessaram-no há séculos e depois desapareceram…”

Jovem, com grandes expectativas diante da vida, com a sensação de possuir todo o tempo do mundo para viver intensamente, Drogo, ao chegar à fortaleza, depara-se com um lugar inóspito, isolado, um forte que parece separar o nada de lugar algum. À frente da muralha apenas um deserto, o qual militares em quase completo isolamento do mundo ficam à espera de um ataque tártaro.

Mesmo sem muita importância estratégica, os militares da fortaleza mantêm um rígido sistema de disciplina, alicerçado em códigos e regimentos. Sob o contraste entre o nada iminente e a rigidez, Drogo começa a se perguntar o propósito, o sentido de um sistema que chega a ser opressor numa luta contra o invisível.

Num primeiro momento, cheio de vida, iniciando sua carreira militar, decide que permaneceria apenas quatro meses em Bastiani. Mas o tempo vai passando e suas aspirações vão se esfarelando como as areias do deserto. O que antes era inquietação vai se tornando acomodação.

Em meio à uma luta que não existe, surgem as lutas dos homens, fechados dentro da fortaleza física e da fortaleza de si mesmos. O homem, isolado da sociedade, com um propósito que não acontece, faz com que o distanciamento crie distorções sobre a realidade e sobre o sentido da vida.

Buzzati/Zurlini criam uma situação em que nos coloca a pensar sobre o sentido da vida. A espera por algo que não se sabe se vai acontecer, o passar dos anos, as escolhas, a ação do destino, a luta do homem contra o tempo, que não cessa, que dilui os sentidos criados pelas burocracias dos homens.

Quando se retiram os sentidos atribuídos pelos homens na tentativa de se preencher a vida de significados, talvez a única certeza esteja na morte. A vida em si é uma fortaleza.

 

Curiosidades – O livro de Buzzati, de 1939, recebera o título de “A Fortaleza”, mas por sugestão do editor, considerando o início da II Guerra Mundial, mudou para “O Deserto dos Tártaros”.  A fortaleza mostrada no filme chama-se Bam e localiza-se na fronteira do Irã com o Afeganistão.

FICHA TÉCNICA
Título:
 Il deserto dei Tartari (Original)
Ano produção: 1976
Música: Ennio Morricone
Fotografia: Luciano Tovoli
Edição: Kim Arcalli, Raimondo Crociani
Dirigido por: Valerio Zurlini
Elenco: Fernando Rey (Nathanson), Francisco Rabal (Tronk), Giuliano Gemma (Mattis), Giuseppe Pambieri (Rathenau), Helmut Griem Lieutenant (Simeon), Jacques Perrin (Drogo), Jean-Louis Trintignant (Médio-Major Rovin), Laurent Terzieff (Amerling), Max von Sydow (Hortiz), Philippe Noiret (General), Shaban Golchin Honaz (Lazare), Vittorio Gassman (Filimore).
Duração: 141 minutos
Gênero: Drama / Guerra
Países de Origem: Itália

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