Por: Melissa Samrsla Brendler

Nada no mundo existe sem o seu oposto. “Uma maior quantidade de luz, significa sempre uma noite mais comprida”, observou Jung. A vida necessita do contraste, da referência e de pontos de vista para permanecer em equilíbrio. No entanto, costumamos distorcer essa realidade. Buscamos uma felicidade pura, restrita apenas em sentir prazer, alegria e satisfação. Porém, essa busca pode acabar provocando exatamente o oposto daquilo que pretende. Quando qualquer coisa torna-se unilateral e exclui o seu oposto, o outro lado, ou aquilo que foi negligenciado, inevitavelmente entrará em ação, reivindicando seu espaço. Por pior que possa parecer, esse “encontro com a sombra”, como costumamos chamar na Psicologia Junguiana, é um convite à expansão da consciência, e tem por objetivo enriquecer nossa realidade, ou nosso senso de eu, que de outro modo permaneceria alienado e superficial. Por isso, podemos afirmar desde já que há um sentido profundo escondido na depressão.

No entanto, para poder entende-la, primeiro precisamos esclarecer alguns aspectos. A depressão pode manifestar-se de três formas diferentes. Ela pode ser reativa, endógena ou intrapsíquica. Freqüentemente, elas podem ser confundidas entre si, ou uma pessoa pode sofrer dos três tipos ao mesmo tempo. Logo, cabe ao psicoterapeuta ajudar a identificar qual delas é a que se faz presente.

A depressão reativa, como o próprio nome diz, é uma reação absolutamente normal a uma perda, desilusão ou desapontamento. Ela se manifesta na mesma medida do envolvimento com a realidade exterior que provocou os sintomas. Ela só é patológica quando perturba profundamente o funcionamento normal da pessoa, ou quando o impacto da experiência se prolonga além de um período razoável.

A depressão endógena vem de uma base desconhecida, porém presumivelmente biológica. É uma depressão transmitida geneticamente, e geralmente encontramos outros membros da família com o mesmo problema. Ela se caracteriza pela enorme dificuldade e esforço em executar tarefas simples que a maioria de nós executa com facilidade. É como se estas pessoas carregassem um enorme peso em seu corpo e sua alma. É o tipo de depressão que se beneficia bastante do uso de antidepressivos, embora o indivíduo ainda possa sofrer das desgraças “normais” da vida.

A depressão intrapsíquica, sobre a qual trata-se o texto, é aquela que vai sendo forjada a partir das circunstâncias que inevitavelmente internalizamos ao longo da vida, especialmente aquelas que se referem à família de origem e ao processo de construção do senso do eu, dos outros e dos relacionamentos. É o chamado “poço sem fundo”, embora do ponto de vista da Psicologia Junguiana seja um poço com fundo.

A palavra de-pressão significa, literalmente, pressionado para baixo. A energia vital e a intencionalidade da vida são contrariadas, pressionadas para baixo. É como se a vida estivesse em guerra contra a própria vida. Algo ficou para trás, foi esquecido, isolado ou negligenciado. Uma grande quantidade da energia vital está presa nos porões mais escuros do inconsciente, impedindo o fluxo natural da vida e reivindicando seu reconhecimento e assimilação. É a psique mostrando seu desejo de expansão ou transição, nos convocando à produção de novos significados para o existir. Precisaremos encontrar o sentido que está oculto por trás dos sintomas, nadando até o fundo do poço para poder enxerga-lo, e assim começar a curar nossa alma.

Existe um certo dilema que atinge a história de todos nós. Ao longo do crescimento, assim como uma planta, nós nos torcemos e até nos distorcemos a fim de obter luz e calor – no caso, a energia amorosa dos nossos pais e cuidadores. Posteriormente, vamos transmitir esse mesmo tipo de funcionamento para todas as relações da nossa vida. No entanto, para que nos tornemos nós mesmos, precisamos abandonar a legítima esperança da criança que reside dentro de nós e nos aceitarmos como somos. Para acabar com a depressão, vamos ter que correr o risco de enfrentar justamente aquilo que mais tememos e que está bloqueando nosso crescimento natural: a ansiedade do isolamento e do desamor devido a frustrantes expectativas coletivas.

Então, somos forçados a escolher entre a ansiedade e a depressão. Se avançamos, como solicita nossa alma, sentiremos ansiedade. Se não avançamos, ficaremos presos na depressão. Nesse processo difícil, precisamos escolher a ansiedade, pois ela indica um caminho de crescimento. A depressão, ao contrário, é a estagnação e derrota da vida.

Portanto, existe um valor profundamente terapêutico na depressão. É um movimento de regressão da energia psíquica que vem a serviço da nossa totalidade e equilíbrio, nos mostrando que existe algo de errado em nosso modo de funcionamento. Se tivermos deixado para trás uma parte importante e vital de nós mesmos, a depressão nos fará voltar para encontra-la, traze-la à superfície, integra-la e vive-la. E, quando formos capazes de tornar consciente esse material, ela irá embora.

Certamente, é preciso muita coragem para isso. Coragem para valorizar e respeitar a depressão, coragem para não se distrair ou se distanciar dela e coragem para não tentar elimina-la a todo custo com o uso de medicamentos. Lá no fundo, nos meandros do nosso labirinto interior, existe um significado profundo, vivo e dinâmico. A depressão nos convida a descer até lá e encontrar esse precioso tesouro.

Artigo escrito por Melissa Samrsla Brendler do blog Psicodrops

 

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