A vida leva e traz pessoas para o nosso convívio o tempo todo. A vida está em constante movimento, sendo que a nossa realidade está sempre interferindo e mudando a realidade de outras pessoas e vice versa.

Assim que passamos a nos entender como gente, já começamos a ganhar e perder pessoas no nosso universo particular. É o amiguinho que se muda com a família, é outro que vem ocupar a mesma vizinhança, novos membros que adentram a nossa família, outros que saem e até os que se vão de vez.

Culturalmente somos “doutrinados” a acreditar que somos apenas metade de um ser, que teremos que encontrar a outra banda para nos unirmos e nos completarmos. Se isso faz sentido ou não, vamos deixar para outro artigo, mas o fato é que estamos sempre a esperar que nesse “leva e traz” de pessoas, a vida nos traga alguém especial.

Nesse aspecto temos dois pontos a analisar: primeiro é que talvez o universo já tenha nos ofertado com essa pessoa, mas não conseguimos enxergar isso. Idealizar o tipo perfeito é a forma mais fácil de não perceber que esse ser especial já possa estar no nosso convívio. O segundo ponto é justamente o contrário, é quando nos enganamos achando que já temos esse ser especial, mas que na verdade é um presente de grego.

É do feitio do ser humano julgar o outro, sempre. Todos nós fazemos isso o tempo todo, alguns com mais crueldade, outros com mais benevolência, mas fazemos. Nesse processo nós vamos avaliando o que as pessoas das nossas vidas estão nos oferecendo, porém, pouco avaliamos a nossa conduta de contrapartida, poucos são os que se enxergam como a causa do afastamento dos outros de suas vidas.

Ninguém quer dar mais do que recebe numa relação, seja ela de amizade, familiar ou amorosa. Claro que existem aqueles que se conformam em se doar mais, que até achem normal ou usem isso como forma de manter a relação, mas o certo é que todo mundo quer ser correspondido na mesma medida. O problema mesmo é quando a medida ultrapassa os limites necessários, quando um dá mais do que o outro pode retribuir e ainda exige de retorno essa igualdade de doação e dedicação. Geralmente, nesses casos, o indivíduo  cria expectativas que não vão se realizar pelo o outro e o fracasso da relação vem de carona nas frustrações.

Quando nos doamos demais e recebemos de menos, enxergamos o outro como o problema, o que não valoriza o que tem. Consideramos que essa pessoa não sabe ou não quer retribuir e passamos a fazer promessas a nós mesmos de que vamos deixar de ser besta. O caso é que entendemos sempre que o nosso jeito de lidar numa relação, seja ela qual relação for, é que é a forma correta e não ser correspondido à altura nessa forma significa que estamos amando sozinhos, que a balança está pendendo mais para um lado.

Tudo isso dito acima foi para chegarmos ao ponto que é o destaque desse assunto. Como mencionado, a vida traz e leva pessoas, que vão passando pela nossas vidas, mas nós também passamos pela vida delas e assim como somos marcados por elas, também as marcamos.  Pessoas vão sim desembarcar do trem da sua vida, assim como você vai desembarcar do trem da vida de muitas, seja por motivo de incompatibilidade na relação, seja por desígnios da própria vida.

A questão é como vamos receber os que estão embarcando no nosso trem, se vamos saber aproveitar as experiências passadas para melhor lidar com esses novos viajantes. Que tipo de marca você deixou nas pessoas que passaram pela sua vida?

As marcas que os outros deixam na gente são muito fáceis de identificar, porém, nem sempre paramos para avaliar que tipo de marca deixamos nas pessoas que passaram por nossas vidas, ou tendemos a achar que fomos o melhor que podíamos ser. Sim, há casos em que oferecemos mesmo o que há de melhor em nós e não recebemos a retribuição que merecemos. Nesse tipo de convivência, romper os laços e nos livrar do “encosto”, será sempre a decisão mais acertada, mesmo que cause dor.

Toda relação é feita de trocas. Você me oferece o seu jeito de amar e de cuidar e eu te ofereço o meu, que não necessariamente têm que ser iguais, mas tem que valer à pena. Tem gente que se doa em pequenos gestos, outras demoram a retribuir, mas quando retribuem, fazem uma grande ação, como quem junta todos os pequenos gestos para dar de uma vez.

Para merecer alguém especial, precisamos ser também especiais, não necessariamente para o mundo, mas para o mundo dessa pessoa. A arte de amar exige dor de quem pratica, não existe amar sem dor e isso é válido para todos os tipos de amor. Não me refiro a dor de amar sozinho, de não ser correspondido, retribuído na mesma medida. Isso é outra questão que a pessoa terá que resolver ela com ela mesma e seus sentimentos. A base que sustenta o amor correspondido é a empatia e é esse sentimento que  governa todos os outros como respeito e consideração.

Amar é doloroso porque a vida é feita de coisas boas e ruins, de altos e baixos, e quando você ama a empatia pela pessoa amada te faz viver os seus sofrimentos e os dela. Qual mãe ou pai não tomariam para si a dor do filho, se pudessem? Ao querer a dor no lugar do filho eles estão praticando a arte de amar. Isso também é válido para as outras formas de relacionamentos.

Não necessariamente você precisa querer a dor do outro pra si para que ele não sofra, mas demonstrar preocupação real e querer livrá-lo do sofrimento é a dor da arte de amar se manifestando pela empatia, isso sim é ser especial, é deixar no outro as marcas que serão lembradas para sempre.

 

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