Tem gente que chega em casa tão exausta que nem consegue descansar. O corpo para no sofá, mas a cabeça continua no e-mail, na meta, na cobrança do chefe, no medo de perder o emprego. Para Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Negócios de Stanford, isso deixou de ser “fase puxada” há muito tempo: virou um problema de saúde pública.
Autor do livro Dying for a Paycheck — algo como “Morrendo por um salário” —, Pfeffer defende que o modo como muitas empresas organizam o trabalho está adoecendo e matando pessoas. A frase que dá título à entrevista, publicada originalmente pela BBC News Mundo, é direta: “O trabalho está matando as pessoas e ninguém se importa”. E ele insiste que não fala em sentido figurado.

Segundo o pesquisador, longas jornadas, insegurança econômica, demissões, conflitos entre trabalho e vida pessoal e falta de proteção adequada criam um ambiente que pesa diretamente sobre o corpo.
Em entrevista reproduzida pelo IHU, Pfeffer cita estimativas de que o estresse ligado ao trabalho estaria associado à morte de 120 mil trabalhadores americanos por ano.
O professor também aponta que 61% dos trabalhadores americanos relatam problemas de saúde causados pelo estresse, enquanto 7% afirmam já ter sido hospitalizados por motivos relacionados ao trabalho. Para ele, o ponto central é que o desgaste deixou de ser tratado como exceção e passou a ser quase uma exigência silenciosa em muitos locais.

Um dos exemplos citados por Pfeffer é o de Kenji Hamada, trabalhador japonês que morreu aos 42 anos após um ataque cardíaco no escritório. Ele trabalhava cerca de 75 horas por semana, enfrentava longos deslocamentos diários e, pouco antes de morrer, havia passado 40 dias seguidos sem folga.
A preocupação do professor ganhou reforço em dados posteriores da Organização Mundial da Saúde e da Organização Internacional do Trabalho. Segundo as entidades, jornadas de 55 horas ou mais por semana foram associadas a 745 mil mortes por AVC e doença cardíaca isquêmica em 2016, um aumento de 29% em relação a 2000.

Para Pfeffer, culpar só o trabalhador por “não saber equilibrar a vida” é uma saída cômoda demais. Ele afirma que empresas e governos também têm responsabilidade, especialmente quando o modelo de gestão recompensa excesso, disponibilidade permanente e medo.
Na avaliação dele, trabalhadores doentes faltam mais, produzem menos e pedem demissão com mais frequência — ou seja, até do ponto de vista financeiro, manter ambientes adoecedores sai caro.
A crítica de Pfeffer incomoda justamente porque troca o discurso motivacional por uma pergunta prática: quantas pessoas estão pagando com a saúde para manter uma rotina que já passou do limite?
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