Cultura

Senegal: jovens artistas encontram ‘liberdade’ na poesia slam

Dilaminou Theila sobe com confiança no palco em um bairro de classe trabalhadora na capital litorânea do Senegal, Dacar, para recitar versos livres sobre o amor.

“Como o filho pródigo / Decidi descobrir o mundo e suas seduções / Mas só consegui tristeza”, declara ela, em francês, recebendo aplausos estrondosos de cerca de 50 entusiastas da poesia slam.

Theila, uma estudante de direito do segundo ano e cidadã do Gabão, é uma entre um número crescente de pessoas atraídas pela próspera cena de slam na metrópole da África Ocidental.

No distrito de Medina de Dakar, dezenas de slammers – muitos deles jovens estilosos – se reuniram para uma das primeiras noites de microfone aberto após um hiato de um ano causado pela pandemia de Covid-19.

Colonialismo, lugar da África no mundo, feminismo e amor são temas recorrentes entre os poetas, que costumam recitar seus versos em uma leitura rápida em seus smartphones.

“Slam, para nós, é uma forma de expressão para nos libertarmos”, disse Theila à AFP após deixar o palco.

“Eu vim hoje à noite e não esperava recitar”, disse ela, sugerindo que estava inspirada para se apresentar por causa da atmosfera contagiante.

A poesia slam, um gênero de verso falado influenciado pela música hip-hop, é popular em toda a África de língua francesa.

Mas o Senegal tem uma tradição particularmente forte dessa forma de arte. O senegalês Abdourahamane Dabo, que morreu no ano passado, ganhou o primeiro torneio africano em 2018.

Todas as 14 regiões do país têm associações de slam, segundo o presidente da Slam League do Senegal, Omar Keita, além de vários grupos de escolas e universidades.

“Mais e mais pessoas estão interessadas”, disse Keita, acrescentando que até mesmo escritores e diretores de teatro consagrados esperam que o slam lhes traga novos públicos.

  • ‘A terapia mais barata’ –

A rica tradição literária de uma nação de 16 milhões de habitantes pode contribuir para a popularidade da poesia slam, sugeriu Keita.

Griots – uma casta de contadores de histórias, cantores e historiadores orais – desempenhou um papel importante na cultura tradicional do Senegal.

Mas o Senegal também tem uma tradição literária vibrante. O autor senegalês Mohamed Mbougar Sarr ganhou o principal prêmio literário da França, o Prix Goncourt, em outubro, e o primeiro presidente do país, Leopold Senghor, foi um poeta renomado.

“Estamos próximos dos poetas clássicos”, disse Keita, o presidente da Slam League.

Vários slammers entrevistados pela AFP sugeriram que a forma lhes permitia misturar interesses em hip hop e literatura. Muitos também apontaram para uma sensação de alívio ao recitar no palco.

“É uma arte que me permite me libertar, dizer em voz alta o que penso e aliviar toda a pressão que recebo frequentemente na vida”, disse Mbeley Moussa Ndiaye, uma das coordenadoras da noite de microfone aberto em Medina.

O jovem de 31 anos que atende pelo nome artístico de “Dinstroy” é consultor tributário, mas continua comprometido com o hobby que começou na juventude.

“Consideramos que a terapia mais barata do mundo são as letras, é o slam”, diz Ndiaye.

Na noite do microfone aberto, os slammers alternam entre diferentes idiomas, tocando em tópicos arriscados, como sexo ou violência doméstica.

A maior parte da poesia slam no Senegal é francesa, mas a língua dominante wolof também é amplamente ouvida.

Nem todos entendem, mas um dos organizadores do evento, Nzengue Ulrich, ressalta que nem sempre as palavras precisam ser entendidas.

“O que nos move é outra coisa: o ritmo do texto da pessoa”, disse.

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