Cora Coralina teve seu primeiro livro publicado apenas depois dos 70 anos, ganhou muita notoriedade quando Carlos Drummond de Andrade a conheceu e escreveu um artigo sobre ela no Jornal do Brasil, onde mantinha uma coluna.

Cora era seu nome artístico, e Drummond costumava dizer que ela era a pessoa mais importante de Goiás. Assim, como diz o poema, Cora teve inúmeras vidas. Foi esposa, mãe, doceira, mulher do povo.

Cora Coralina por ela mesma:

Comecei a escrever aos 14 de idade, numa idade em que não tinha leitura, não tinha cultura e não tinha vivência. Mal tinha deixado a escola primária e escrevia o que eu chamo hoje “os meus escritinhos”. Mas eu me enchia de muita vaidade e para escrever me servia apenas do meu imaginário, nada mais. Tentei o verso, mas, enquanto a poesia esteve determinada pela rima e pela métrica, nunca consegui armar uma quadra. De modo que passei para a prosa, mas diziam em Goiás, naquele tempo, que eu escrevia a poesia em prosa e nessa ocasião procurei o meu pseudônimo porque me chamo Anna e, sendo Sant’Ana a padroeira da cidade, tinha muita Ana naquele tempo e eu tinha medo que a minha glória literária fosse atribuída a outra Ana. Procurei então, um nome que na cidade eu não tivesse xará, achei Cora. Cora só … não chegava, encontrei Coralina. Juntei os dois e hoje me identifico…” Em sua Árvore Genealógica, Cora traz parentesco com o poeta Olavo Bilac (1865-1918), por parte do pai Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto, e com o poeta Luis do Couto (1884-1948), por parte da mãe Jacyntha Luiza do Couto Brandão.

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No show do projeto GIRANDEIRA, o grupo musical As Clarianas declama o poema de Cora e a interpretação é maravilhosa. Confira no vídeo abaixo:

 

“CLARIANAS” é um grupo musical formado por 3 cantoras/atrizes (Martinha Soares, Naloana Lima e Naruna Costa), um rabequeiro/violonista (Giovani Di Ganzá) e uma percussionista (Fefê Camilo), que tem como mote principal a investigação da voz da mulher “ancestral” na música popular do Brasil, a partir do contexto da música “natural”, de tradição popular, dos cantos caboclos de matriz africanordestina-indígena-periférica, das comunidades brasileiras.

O poema TODAS AS VIDAS

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…

Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.

Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.

Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.

Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.

Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.

Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

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