Por: Joilson Kariri Rodrigues

A mutilação de Van Gogh é, sem dúvida, um dos atos mais famosos da história da arte. A versão mais popular desse episódio bizarro conta que o artista, numa atitude transloucada, passou uma lâmina na própria orelha após uma discussão medonha com Paul Gauguin, que era seu colega de ofício e quarto.

A relação dos dois artistas era turbulenta, recheada de discordâncias em todos os aspectos. Gauguin havia aceitado fazer companhia a Vincent através de uma proposta de Theo, irmão do colega, que, em troca, “patrocinava” a sua carreira. A parceria não deu muito certo, em função da “incompatibilidade de temperamentos”, segundo contou o próprio Gauguin em carta a Theo, e se apartar foi uma decisão que resultou nesse episódio horripilante.

Agora estudos recentes apontam para outro motivo. A alma de van Gogh era um varal onde se estendiam e se misturavam talento e dores, muitos tormentos e os fantasmas de decepções, tudo isso secando ao frio. A vida era um inferno e o irmão Theo fazia a vez de ser o único facho de luz nessa escuridão. Theo era quem dava o prumo, era mais que isso, era quem dava o sopro que ainda mantinha o irmão como um barquinho de papel seguindo em frente.

Vincent era bem mais que um homem fracassado, era um artista condenado a ser escravo da sua arte, do seu talento que o mundo desprezava e insistia em não reconhecer. Havia, nessa altura da vida, atingindo o ponto onde todas as portas ainda estão emperradas diante de si, e atrás de si, todos os caminhos haviam desaparecido.

Theo era o grito de incentivo, talvez a única voz consoladora a ecoar no silêncio doloroso de um mundo onde todos se calavam para ignorar.  Mas aquela alavanca esperava ressarcimento, havia que retornar à mão investidora cada centavo destinado ao sustento do artista persistente. Van Gogh, que já não podia mais produzir outra coisa que não fosse sua arte, criara uma dependência do apoio do irmão, que lhe gerava uma dívida que se acumulava que, por sua vez, aumentava a ansiedade, o sentimento de impotência e a angustia de não ser logo senhor do seu próprio sustento.

Então a alma do pintor não pôde resistir ao vendaval que foi se formando dentro de si. A sua alma, desamparada e só, teve medo da tempestade que se aproximava. Theo, sua única fonte de sustento e incentivo, inventara-se de se casar, fazendo com que Vincent previsse o rompimento da parceria.

A notícia deu-se num dia ruim, num momento em que a alma do artista já lutava em águas turbulentas para não se afogar. O mundo já lhe impingia uma dor que não tinha nenhuma razão de doer, mas doía: Gauguin anunciava que ia para Paris de mudança, fustigado pelo cansaço de se tentar uma parceria inútil, que não vingara.

Nessa noite ruim a voz consoladora de Theo se calara, Vincent sentia que se calara, que sua cabeça a partir de agora seria só um oco silencioso.  A casa também, sem o colega, seria um lugar de mais solidão, como se já não fosse tanta a solidão do travesseiro vazio no outro lado da cama, a espera da cabeça de mulher que nunca se servira dele.

Van Gogh quer outra dor, quer trocar de desespero, talvez imagine que o amigo que o abandona possa fazer a vez do Nazareno, como este fez ao soldado a quem Pedro decepou a orelha, que lhe possa grudá-la outra vez. Daí se aleijou, achando que assim fosse aplacar a ira de sua alma atormentada, mas foi em vão. Carregou consigo aquele varal de angustias e solidão até o dia em que inventou de se desfazer da vida, dando cabo nela.

Uma única tela, como uma filha que tenta tristemente salvar o pai da solidão dos desgraçados. Entre tantas outras crias de seu talento genial, apenas uma consegue dar-lhe uma amostra humilde da realização pessoal. Uma única obra foi o que ele vendeu em vida. O dinheiro pago por ela foi para Theo, mas Vicent deve ter sorrido feliz ao menos nesse dia.

 

 

Texto inspirado no artigo homônimo do The Guardian

 

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