Texto de Helena Vieira.

Chamo de ativismo narcisista aquele auto-centrado, em que o ativista, toma a si mesmo como molde de perfeição da luta.

Geralmente intolerante e duro com o outro, este ativismo é tomado de um discurso autoritário explícito: não se move, não se abre a atravessamentos e nem a construções, rejeita a discordância e se protege acusando o interlocutor. É o ativismo que não está disposto a nada além de seus monólogos e seus momentos de estrelato.

Acredito que este ativismo se constitua a partir de uma confusão básica entre ”intolerância” e ”radicalidade política”, acreditando que manter-se em constante ”defesa”, recusando-se a eventualmente rever suas posturas, estará sustentando uma posição política firme. Mas firmeza não é dogmatismo, né? Representatividade não é ” auto-promoção”.

Não há problema algum que ativistas sejam famosas, aliás, é mesmo importante que mulheres negras, mulher trans e tantas outras que historicamente ocupam espaços subalternos estejam na mídia e estejam tendo visibilidade.Quero mesmo é que tenhamos cada dia mais visibilidade e mais e maiores conquistas. O problema está quando o discurso se esvazia na busca dos likes e da ” lacração” e não se abre ao dissenso, à discordância.

Essas posturas podem ter lá sua função, provavelmente tem. Mas não é com autoritarismo que se constrói política pública. Não é com uma “fala” que rejeita ”escuta”, que se pode sensibilizar o outro. Há, em todos os grupos que reúne ativistas, disputas para saber quem fala, quem pode ter voz, e principalmente, há uma disputa para saber quem ”problematiza” mais e melhor. A marca do ativismo narcista é atacar tudo: não há desconstrução, mas destruição.

Desconstrução é um conceito que conheci através da leitura do filósofo argelino Jacques Derrida, em suas proposições, desconstruir é um processo de deslocar os sistemas de pensar, permitindo que eles estejam abertos, que não se enclausurem em verdades violentas. Em Gramatologia, a pergunta marcante é ”Como, então, fugir a essa verdade violenta?”.

Desconstruir é, pois, uma prática de alteridade também, e não a imposição de uma nova verdade violenta em substituição às antigas. A questão que devemos nos colocar é: Como eu posso produzir deslocamentos se parto de uma fixidez de mim e do outro?

Talvez o caminho esteja em fugir da escuta autoritária. Afinal, o que é escuta autoritária? Acredito que seja uma postura ( bastante comum, todos nós já a tivemos) de escuta, estruturada nas seguintes características:

1-) Escuto buscando o erro no discurso do outro, procurando o que preciso reclamar, o que preciso problematizar, o que está fora do lugar. Não há preocupação em entender, mas em buscar um ataque;

2-) O desprezo apriorístico: ” Vai, fala, não deve sair nada bom mesmo, mas não custa deixar falar. Fala aí”;

3-) A escuta temporal: Eu escuto buscando o intervalo em que poderei fazer algum comentário genial, e ” lacrar”.

4-) Negação da subjetividade: ” É omi, cis, hetero e branco? Morre! Não tem que falar” ( Como é que escuta assim, gente?)

Rompendo com essa escuta, a gente aprende a falar e talvez a gente possa ouvir as narrativas do outro, e entender o caminho para promover a empatia.

Ao fim, o ativismo narcisista somado a escuta autoritária, só que ouvir uma coisa mesmo:

” A senhora lacra, mulher”.

PS: Nem todo ativismo na internet é assim.

PS ² : Não há nenhum problema em receber alcunhas elogiosas como ” Diva” ou ” A senhora lacra mulher”, o problema está em pautar o ativismo nisso. Conheço pessoas extremamente sérias, que lidam normalmente com estes ” elogios”. A questão é quando discurso restringe-se a busca por auto-promoção.

Helena Vieira é travesti e transfeminista. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 26/12/2015.

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