Tem filme que escolhe o hospital como palco de desespero. A Natureza das Coisas Invisíveis faz o contrário: coloca a câmera onde quase ninguém quer ficar — nos intervalos.

Naqueles minutos que parecem horas, entre uma notícia e outra, entre o “já vai chamar” e o silêncio do corredor. É nesse clima de tempo suspenso que duas meninas de 10 anos se esbarram e, sem cerimônia, começam a dividir o que não sabem nomear.

Glória está ali porque a mãe trabalha no hospital e, nas férias, ela acaba “morando” naquele ambiente de crachá, regras e portas que se fecham sozinhas.

Sofia aparece por causa da bisavó internada e vem com um incômodo típico de criança: a sensação de que aquele lugar, por si só, dá azar — como se estar ali fosse empurrar as coisas para pior.

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Quando as duas decidem se acompanhar pelos corredores e inventar passatempos para não enlouquecer de tédio, o filme encontra seu melhor caminho: mostrar como crianças transformam qualquer brecha em ideia, qualquer rotina em descoberta.

A graça — e a dor — estão no jeito como essa amizade vai virando um tipo de refúgio. Elas não têm para onde ir, então criam pequenos escapes: observar quem entra e sai das salas, decifrar conversas pela metade, colecionar pistas de vidas que passam por trás das portas.

Parece brincadeira, mas tem uma função bem concreta: segurar o medo com as próprias mãos, do jeito que dá.

Glória carrega uma questão que poderia ser tratada de forma espalhafatosa, mas o roteiro escolhe um caminho mais sensível.

Depois de um transplante de coração, ela percebe mudanças internas difíceis de explicar: reações que não combinam com o que ela lembrava de si mesma, como se o corpo tivesse virado um terreno novo e ela ainda estivesse aprendendo o mapa.

Não vira fantasia “mística”; vira estranhamento real, daqueles que mexem com identidade, com autoestima e com a pergunta que ninguém sabe responder direito: “o que eu estou sentindo é meu mesmo?”

Sofia, por outro lado, é movida por urgência. Ela tenta negociar com o mundo do jeito infantil clássico: procurando uma causa que faça sentido, criando regras invisíveis para lidar com algo que assusta demais.

A culpa aparece em forma de superstição — não como piada, mas como tentativa desesperada de controlar o incontrolável. E isso pega porque é exatamente assim que muita gente começa a entender perdas: procurando um botão que, se tivesse sido apertado diferente, mudaria tudo.

As duas funcionam juntas porque oferecem ritmos opostos para a mesma aflição. Glória olha, engole, pensa. Sofia fala, propõe, cutuca, arma planos. Uma desacelera a outra; a outra empurra a primeira para fora da própria cabeça.

E, nesse vai e volta, nasce uma intimidade que não precisa de discursos: basta um corredor longo, uma pausa estranha, um comentário atravessado que vira confissão.

O filme também acerta ao não “adoçar” a experiência. Tem riso, tem brincadeira, tem leveza — só que sempre atravessada por algo que pesa: a bisavó que pode não voltar para casa, o coração que ainda parece estrangeiro, as férias que viram um calendário sem graça.

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A câmera não trata as meninas como enfeite emocional; trata como gente pequena vivendo coisas grandes, percebendo muito mais do que os adultos ao redor imaginam, só sem vocabulário pronto para explicar.

Laura Brandão segura Glória com uma atuação contida e certeira, daquelas em que o principal acontece no olhar e no jeito de ficar quieta. Ela passa a sensação de alguém que teve a infância interrompida por um acontecimento enorme e agora tenta se recompor por dentro, sem fazer alarde.

Já Serena dá à Sofia uma energia elétrica: a personagem parece engraçada e irritada ao mesmo tempo, como quem usa coragem como armadura — e, quando a armadura racha, dá para ver o medo ali, pulsando.

A química das duas não soa como diálogo ensaiado para “ser fofo”. Parece convivência: uma provoca, a outra mede; uma exagera, a outra ajusta; uma quer ação, a outra quer entender.

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E a direção de Rafaela Camelo ajuda ao filmar o hospital na altura delas, deixando o mundo adulto com cara de labirinto — cheio de procedimentos, avisos, normas, gente apressada e respostas incompletas.

Com duração enxuta, A Natureza das Coisas Invisíveis faz muito com pouco: um espaço fechado, duas crianças, duas angústias bem diferentes e uma amizade que aparece quando ninguém está pedindo lição de vida.

O turbilhão vem justamente daí: o filme encosta em emoções bem comuns — culpa, medo, esperança, pertencimento — e mostra como tudo isso mora no corpo, mesmo quando ninguém sabe dizer em voz alta.

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.