Tem série que demora a engrenar. Duas Covas faz o contrário: já começa com um achado macabro que muda o clima da cidade na hora e obriga todo mundo a encarar uma pergunta que ficou “em aberto” por anos.

E como são só três episódios, a história não tem tempo pra enrolação — cada cena puxa outra, sempre com cara de “tem coisa aí”.

Logo no começo, a descoberta de restos humanos numa área afastada quebra a calmaria da comunidade e vira um gatilho coletivo: gente que jurava ter superado o passado volta a falar, outros fazem de tudo pra não falar nada.

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O suspense nasce justamente desse contraste entre o que está sendo investigado e o que os moradores tentam controlar.

A partir daí, o caso ganha formato de investigação mesmo, com pistas surgindo aos poucos e depoimentos que não se encaixam.

A sensação é de estar acompanhando uma cidade inteira tentando manter a própria versão dos fatos — e falhando, porque sempre aparece um detalhe novo que contradiz o anterior.

Quem puxa esse fio é a inspetora interpretada por Kiti Mánver, que retorna ao local para coordenar a apuração e lidar com um ambiente claramente hostil.

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A volta dela não mexe só com o trabalho policial: mexe com famílias que preferiam ter seguido a vida sem revisitar o que aconteceu, e com gente influente que parece ter “motivo demais” pra querer o assunto enterrado.

Entre os mais afetados está o personagem de Álvaro Rico, um jovem marcado pelo desaparecimento ligado ao caso.

Ele funciona como ponto de tensão constante, porque a cada nova informação o passado dele muda de forma — e a série brinca com isso: memória, versões, culpa e conveniência. Nada vem limpo, tudo vem com ressalva.

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Outra peça importante é a personagem de Carmen Ruiz, que traz o lado mais emocional da trama: a dor que não aceita atalho e a impaciência com respostas fáceis.

Quando ela entra em cena, o mistério deixa de ser só “quem fez” e vira também “quem ajudou a esconder” — e por quanto tempo.

O roteiro ainda alterna presente e fragmentos do passado para montar o quebra-cabeça sem entregar tudo de uma vez.

Esse vai e volta não é enfeite: ele muda o jeito como você enxerga cada personagem, porque uma atitude aparentemente normal no presente pode ganhar outro peso quando aparece o que aconteceu antes.

No elenco, além de Mánver, Rico e Ruiz, os coadjuvantes ajudam a sustentar o clima de suspeita permanente, com moradores que oscilam entre colaborar, desviar e se proteger.

Duas Covas está disponível na Netflix e funciona muito bem pra quem gosta de suspense curto, tenso e com revelações bem colocadas — daqueles que fazem o espectador desconfiar de todo mundo.

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.