Em “O Falsário”, a Netflix pega carona num caso que atravessou o meio artístico e chegou até o cinema: o de Toni Chichiarelli (Pietro Castellitto), um pintor italiano que tenta se firmar na Roma dos anos 1970 e descobre, rápido, que talento sozinho não paga aluguel nem derruba portas fechadas.

O choque vem quando ele encosta no circuito “oficial” e percebe o tamanho da resistência a gente nova.

Galerias, intermediários e regras não escritas formam um filtro que trava qualquer avanço. Toni insiste, tenta se apresentar, busca espaço — e toma “não” com cara de protocolo, daqueles que só empurram o problema pra amanhã.

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Sem romantizar a virada, o filme mostra como ele começa a rondar um caminho alternativo: onde a técnica dele vale dinheiro de verdade.

A entrada numa rede de falsificação aparece como escolha pragmática, quase um contrato informal: tem demanda, tem prazo, tem pagamento. Em troca, vem o pacote completo do submundo — sigilo, vigilância e dependência de quem manda.

Pietro Castellitto faz desse Toni alguém que aprende rápido e mede cada passo. O personagem não se vende como mártir nem como gênio incompreendido: ele observa, calcula, executa.

E, quanto mais “perfeito” o trabalho fica, mais ele vira peça central do esquema — aquele tipo de promoção que vem acompanhada de cobrança, risco e pouca saída.

Giulia Michelini entra como o ponto de atrito fora dessa engrenagem. A presença dela funciona como lembrete de que vida social e afetiva não seguem a lógica fria do serviço clandestino, e que o custo das escolhas não se limita ao que acontece entre uma entrega e outra.

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Já Andrea Arcangeli compõe o núcleo que mantém o sistema rodando, reforçando a dinâmica de grupo que protege, mas também controla.

Na direção, Stefano Lodovichi segura a mão para não transformar a trama em sermão sobre “o que é arte” ou em debate teórico sobre autenticidade.

O filme prefere o concreto: acertos, prazos, negociações, esconderijos, repetição. A falsificação vira rotina de trabalho — e o suspense nasce do relógio e do medo do erro, não de grandes discursos.

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Até o humor aparece com uma ironia seca: o mercado ilegal, por baixo dos panos, copia vícios do mercado formal — hierarquias, vaidades, burocracias e disputa por status.

A graça vem justamente dessa organização quase “profissional”, que deixa tudo ainda mais desconfortável quando a coisa aperta.

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.