Via Time

Os proprietários de escravos norte americanos mantinham um equilíbrio entre suas crenças e a prática cruel da exploração escravista. Como faziam isso? segundo o novo livro de Noel Rae, The Great Stain- Witnessing American Slavery (A Grande Mancha, Testemunhando a escravidão americana), para muitos deles essa racionalização se garantia na bíblia.

Dos mais de três quartos de milhão de palavras na Bíblia, os proprietários de escravos cristãos — e, se solicitado, a maioria dos proprietários de escravos se definiria como cristão
— tinham dois textos favoritos, um logo no início do Antigo Testamento e o outro do fim do Novo Testamento. Nas palavras da Bíblia da tradução de King James, que era a versão atual, estes foram, primeiro, Gênesis IX, 18-27:

E os filhos de Noé, que da arca saíram, foram Sem, Can e Jafé; e Can é o pai
de Canaã.
Estes três foram os filhos de Noé; e destes se povoou toda a terra.
E começou Noé a ser lavrador da terra, e plantou uma vinha.
E bebeu do vinho, e embebedou-se; e descobriu-se no meio de sua tenda.
E viu Can, o pai de Canaã, a nudez do seu pai, e fê-lo saber a ambos seus
irmãos no lado de fora.
Então tomaram Sem e Jafé uma capa, e puseram-na sobre ambos os seus
ombros, e indo virados para trás, cobriram a nudez do seu pai, e os seus rostos
estavam virados, de maneira que não viram a nudez do seu pai.
E despertou Noé do seu vinho, e soube o que seu filho menor lhe fizera.
E disse: Maldito seja Canaã; servo dos servos seja aos seus irmãos.
E disse: Bendito seja o Senhor Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.
Alargue Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo.

Noé, num rompante de raiva e desgosto, amaldiçoou o neto Canaã, que não tinha nenhuma culpa no ocorrido; e decerto deveria ter a mesma cor do pai e tios, portanto não faz sentido usar qualquer aplicação desse texto para justificar a sujeição dos povos negros, mas era usada mesmo assim. Numa versão popular, conhecida como “A Maldição de Can”, Canaã foi retirado da história, Can foi feito de preto e seus descendentes foram feitos africanos. Se Canaã, mais tarde, vinha a se tornar o pai dos cananeus, que viveram na Palestina, não tinha como ser o pai dos africanos, por isso criaram essa nova versão.

E o outro favorito vinha da Epístola do Apóstolo Paulo aos Efésios, VI, 5-7:
Vós, servos, obedecei a vossos senhores segundo a carne, com temor e tremor,
na sinceridade de vosso coração, como a Cristo;
Não servindo à vista, como para agradar aos homens, mas como servos de
Cristo, fazendo de coração a vontade de Deus;
Servindo de boa vontade como ao Senhor, e não como aos homens. (Paulo se
repetiu, quase palavra por palavra, no terceiro capítulo de sua Epístola aos
Colossenses.)

Outras passagens do Antigo Testamento também eram extraídas e aplicadas pelos que defendiam a escravidão, principalmente as que reforçavam a ideia de que a prática de escravizar era algo comum entre os israelitas. O propósito era o de fazer com que os negros aceitassem sua condição, por essa ser uma vontade de Deus, porque era assim que ele havia distribuído a missão de cada um, que tinha que ser aceita, respeitada e cumprida por vontade dele.

Quanto ao Novo testamento, esse foi amplamente ignorado, exceto no sentido de apontar que em nenhum lugar Jesus condenou a escravidão, embora a história de Onésimo, o escravo fujão, por quem Paulo intercedeu para que o seu proprietário Filemon o perdoasse, fosse muitas vezes citada, como forma de acentuar a naturalidade da servidão.

Os Castigos

O Bispo Willian Meade, da igreja episcopal da Virginia, embora ele batalhasse para que os senhores dessem um melhor tratamento a seus escravos, tendo ele dado o exemplo liberando os seus próprios, justificava os castigos com a seguinte explicação: ” Suponhamos, por exemplo, que você tenha sido punido por algo que você não fez, “não é possível que você tenha feito outra coisa ruim que nunca fora descoberta e que o Deus Todo-Poderoso, que o viu fazendo, não deixaria escapar sem punição uma vez ou outra? E você não deveria, em tal caso, dar-lhe glória e agradecer que ele prefira puni-lo nesta vida por sua maldade do que destruir suas almas por isso na próxima vida? Mas suponha que mesmo este não fosse o caso – um caso que praticamente não pode ser imaginado – e que, de nenhuma maneira, conhecido ou desconhecido, mereceu a correção que sofreu; Há um grande conforto nisso, se você suportar pacientemente e deixar a sua causa nas mãos de Deus,”

No entanto, Meade não considerava a escravidão um pecado, apenas um obstáculo para o crescimento econômico. Ele acreditava que os princípios cristãos poderiam ensinar os senhores a tratar seus escravos bem e em contrapartida fazer com que os cativos aceitassem sua condição passivamente.

Não sendo cristianizado, está condenado 

O bispo Stephen Elliott, da Geórgia, era mais enfático em usar a vontade de Deus para justificar a escravidão. Crítico severo dos que eram contra a escravidão, Elliot defendia a manutenção do trabalho escravo alegando que o fracasso das igrejas inglesas e americanas em civilizar e cristianizar a África Ocidental, era argumento suficientemente bom para tal feito. A justificativa dele era a que os negros escravizados aceitavam ser cristãos, portanto estavam salvos; enquanto os negros livres da África se recusavam a aceitar Cristo, e por
isso estavam condenados, ou seja: escravizar e cristianizar o negro era uma forma de presenteá-lo com a salvação.

“Neste momento, há de três a quatro milhões de africanos se educando para a  Terra e para o Céu nos tão vilipendiados estados do sul. Aprendendo as  melhores lições para um povo semi-bárbaro; lições de autocontrole, de  obediência, de perseverança , de adaptação de meios a fins; aprendendo,  acima de tudo, onde estão suas fraquezas e como eles podem adquirir força  para a batalha da vida. Essas considerações me satisfazem com sua condição  e me asseguram que é a melhor relação que podem, por enquanto, ser feitas
para se ocuparem “.

Ao rever o trabalho das igrejas brancas, Frederick Douglass disse isso: “Entre o  cristianismo desta terra e o cristianismo de Cristo, reconheço a maior diferença  possível; tão grande que para receber um como bom, puro e santo, é necessário
rejeitar o outro como mau, corrupto e perverso. Ser amigo de uma pessoa é, necessariamente, ser o inimigo do outro. Eu amo o cristianismo puro, pacífico e imparcial de Cristo; portanto, odeio o cristianismo corrupto, que apoia a  escravidão, que chicoteia mulheres, escraviza recém nascidos, parcial e  hipócrita desta terra. Na verdade, não consigo ver algo mais enganoso que chamar a religião dessa terra de cristianismo.

 

(TIME)

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