Aos 97 anos, June Lockhart carregava no rosto quase nove décadas de uma carreira iniciada quando o cinema ainda estava aprendendo a falar. As feições haviam mudado, como acontece com qualquer pessoa que tenha o privilégio de envelhecer, mas permaneciam reconhecíveis o olhar atento, a postura elegante e o sorriso que acompanhou diferentes fases da televisão americana.

Para milhões de espectadores, ela continuava sendo a mãe acolhedora de Lassie ou a equilibrada Maureen Robinson de Lost in Space. Fora das câmeras, porém, June era bem menos previsível do que as personagens responsáveis por torná-la famosa.

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Uma infância cercada por atores

June Kathleen Lockhart nasceu em 25 de junho de 1925, em Nova York. Era filha dos atores Gene e Kathleen Lockhart e cresceu acompanhando de perto os bastidores do teatro e do cinema.

Sua primeira experiência profissional aconteceu ainda na infância. Aos oito anos, participou de uma apresentação no Metropolitan Opera House. Em 1938, quando tinha 13, estreou no cinema em uma adaptação de A Christmas Carol. Seus pais interpretavam o casal Bob e Sra. Cratchit, enquanto June apareceu como uma das filhas da família.

A produção abriu caminho para trabalhos em filmes como Sergeant York, de 1941, e Meet Me in St. Louis, lançado em 1944. Em vez de depender exclusivamente do sobrenome conhecido, ela também construiu uma trajetória sólida no teatro.

Em 1947, sua atuação na peça For Love or Money lhe rendeu um prêmio Tony especial, entregue a artistas considerados promissores. June tinha apenas 22 anos.

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A mãe que virou um dos rostos mais conhecidos da televisão

O papel que mudou sua carreira chegou em 1958, quando June assumiu a personagem Ruth Martin em Lassie. Ela interpretava a mãe adotiva de Timmy, menino que vivia aventuras ao lado da famosa cadela da raça collie.

Ruth era firme sem parecer autoritária e afetuosa sem ser reduzida a uma figura passiva. A interpretação de June ajudou a transformar a personagem em uma das mães mais conhecidas da TV americana.

A atriz permaneceu na produção até 1964. Durante aqueles anos, sua imagem ficou tão associada ao papel que parte do público passou a enxergá-la como uma espécie de mãe nacional.

June compreendia o peso dessa associação. Em uma entrevista recuperada pela Associated Press, reconheceu que muitos atores passam a vida inteira trabalhando sem encontrar um personagem que seja imediatamente identificado como seu. Para ela, Ruth Martin cumpriu essa função.

De uma fazenda para uma nave espacial

Pouco depois de deixar Lassie, June trocou o ambiente rural por uma expedição interplanetária. Em 1965, estreou como a Dra. Maureen Robinson em Lost in Space.

A personagem viajava a bordo da nave Jupiter 2 com o marido e os filhos, depois que a missão da família se desviava de sua rota. Embora os roteiros frequentemente destacassem o Dr. Smith, o jovem Will e o robô, Maureen tinha formação científica e funcionava como uma das figuras mais sensatas da tripulação.

Para uma série produzida em uma época em que personagens femininas ainda recebiam pouco espaço na ficção científica, sua presença tinha relevância particular. Maureen participava das decisões, compreendia os riscos técnicos da missão e ajudava a manter a família organizada em situações que incluíam alienígenas, planetas hostis e um médico especialista em criar problemas.

A série foi exibida entre 1965 e 1968 e ganhou seguidores que continuaram acompanhando o elenco por décadas.

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A mulher fora das personagens comportadas

A imagem serena de June nas telas escondia uma personalidade curiosa e bastante ativa. Ela gostava de política, acompanhava as notícias diariamente e chegou a frequentar coletivas de imprensa na Casa Branca usando uma credencial própria.

Segundo Lyle Gregory, amigo da atriz durante 40 anos, o jornalismo era uma de suas grandes paixões. Mesmo perto dos 100 anos, June lia diariamente o The New York Times e o Los Angeles Times para se manter informada.

Ela também cultivou amizades pouco esperadas pelo público. Bill Mumy, intérprete de Will Robinson em Lost in Space, contou que June tinha proximidade com David Bowie. A ligação entre a atriz associada às famílias televisivas dos anos 1950 e um dos músicos mais inventivos do século XX revela uma mulher menos convencional do que seus papéis sugeriam.

Em 1970, durante uma participação no programa de Virginia Graham, June ainda questionou publicamente o tom moralista adotado pela apresentadora ao conversar com o reverendo Troy Perry, ativista pelos direitos de pessoas LGBTQ+. O episódio mostrou que sua educação diante das câmeras não significava silêncio quando discordava de alguma postura.

Uma carreira que atravessou várias gerações

Depois de Lost in Space, June entrou para o elenco de Petticoat Junction, interpretando a médica Janet Craig entre 1968 e 1970. Também acumulou participações em dezenas de séries e programas.

Seu currículo incluiu trabalhos em General Hospital, Beverly Hills, 90210, Roseanne, 7th Heaven, The Drew Carey Show, Grey’s Anatomy e Cold Case. Cada participação aproximava a atriz de um público que talvez nunca tivesse acompanhado seus primeiros filmes ou os episódios originais de Lassie.

Em 2021, aos 96 anos, ela emprestou a voz a uma personagem da nova versão de Lost in Space, produzida pela Netflix. Foi seu último crédito televisivo e uma ligação direta entre a série dos anos 1960 e sua releitura contemporânea.

June também recebeu duas estrelas na Calçada da Fama de Hollywood: uma por sua contribuição ao cinema e outra pelo trabalho na televisão. Em 2013, a NASA concedeu a ela a Medalha de Realização Pública Excepcional por seu apoio à divulgação da exploração espacial.

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Aos 97 anos, o envelhecimento não apagou sua presença

Fotografias de June aos 97 anos circularam com frequência nas redes sociais, muitas vezes acompanhadas de comentários sobre sua beleza. O que chamava atenção, porém, ia além da comparação entre sua aparência jovem e o rosto na velhice.

Ela continuava expressiva, bem-humorada e interessada no que acontecia ao seu redor. Não tentava reproduzir artificialmente a imagem que possuía aos 30 ou 40 anos. Sua elegância vinha justamente da maneira segura como ocupava a própria idade.

June chegou aos 100 anos em 25 de junho de 2025. Quatro meses depois, em 23 de outubro, morreu de causas naturais em sua casa, em Santa Monica, na Califórnia. Sua filha June Elizabeth e a neta Christianna estavam ao seu lado. De acordo com o porta-voz da família, a atriz permaneceu feliz e atenta às notícias até os últimos dias.

Ela deixou duas filhas, Anne Kathleen e June Elizabeth, quatro netos e uma carreira iniciada em 1938, quando apareceu timidamente ao lado dos pais. Décadas depois, seu rosto ainda despertava a sensação imediata de familiaridade reservada a poucas estrelas da televisão.

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Gabriel Pietro
Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.