Tem filme que aposta em grandes reviravoltas. Vidas Passadas faz o contrário: chama atenção justamente pelo que deixa suspenso.

Escrito e dirigido por Celine Song, o longa que acaba de entrar na Netflix acompanha o reencontro entre duas pessoas marcadas por um vínculo antigo, desses que o tempo não apaga por completo, mesmo quando a vida segue por caminhos muito diferentes.

A história começa na Coreia do Sul, quando Na Young e Hae Sung ainda são crianças. Os dois dividem a rotina da escola, a convivência de bairro e uma proximidade que nasce de forma simples, quase sem ser percebida.

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Só que tudo muda quando a família dela decide emigrar. A despedida acontece cedo, sem cena exagerada, mas com um efeito profundo: ela deixa para trás não só um garoto importante, mas também uma parte da própria identidade.

Já vivendo fora do país, Na Young passa a se chamar Nora. A mudança no nome acompanha transformações maiores, ligadas à língua, ao lugar onde vive e à forma como passa a se enxergar. Primeiro no Canadá, depois em Nova York, ela constrói outra vida.

Hae Sung, por sua vez, permanece em Seul, ligado à lembrança daquela menina que saiu de repente do seu cotidiano. O roteiro trabalha esse afastamento com delicadeza e mostra como certas relações não desaparecem, apenas mudam de lugar dentro da memória.

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Anos depois, os dois conseguem se reencontrar pela internet. As conversas por chamada de vídeo e mensagem reacendem a intimidade de antes, mas também expõem o peso do tempo.

Há carinho, curiosidade e reconhecimento, mas também existe a sensação constante de que algo ficou preso no passado.

A tecnologia aproxima as vozes e os rostos, porém não resolve aquilo que foi interrompido quando cada um passou a viver em realidades tão diferentes.

Quando Hae Sung vai a Nova York, o filme ganha outra camada. Nora já está casada com Arthur, um escritor americano, e o encontro entre os três cria uma tensão silenciosa, muito mais interessante do que qualquer conflito óbvio.

O longa não transforma o marido em rival caricato nem trata Hae Sung como uma lembrança idealizada.

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Cada um ocupa um espaço muito concreto na vida dela, representando afetos, idiomas e versões distintas de quem Nora foi e de quem ela se tornou.

É nessa fase que surge com mais força a ideia de in-yun, conceito coreano citado no filme para falar de conexão e destino entre pessoas.

Em vez de usar isso de forma mística ou exagerada, Celine Song incorpora o tema ao cotidiano do casal, às conversas dentro de casa e ao desconforto sutil de Arthur ao perceber que existe uma dimensão da mulher que ele ama que nunca será totalmente traduzida para ele.

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O filme acerta justamente por manter tudo nesse registro íntimo, onde o incômodo vem menos do drama externo e mais daquilo que não cabe em palavras.

No fim, Vidas Passadas fala menos sobre escolher entre dois homens e mais sobre o encontro entre versões diferentes de uma mesma vida.

Entre Seul, Nova York e o espaço criado pelas lembranças, o longa constrói uma história sensível sobre tempo, imigração, amor e aquilo que poderia ter sido.

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.