Por Vinícius Siqueira, do Colunas Tortas

O pós-guerra no século XX foi espaço de construção de novas formas de se interpretar o mundo e de lidar com a falência da modernidade, acertada após a ascensão do nazismo e do uso da técnica e da tecnologia para a construção do holocausto.

O estruturalismo, que ganhou nas ciências sociais um destaque amplo nos anos 50 e 60, foi uma dessas novas formas de pensar o mundo que ganhou corpo no período. Sob a batuta de Lévi-Strauss, um novo método de análise foi criado e desenvolvido com objetivo de encontrar as estruturas elementares do espírito humano e de, assim, afirmar categoricamente que todos os humanos são iguais em um dado nível.

“Se, como cremos, a atividade inconsciente do espírito consiste em impor formas a um conteúdo e se essas formas são fundamentalmente as mesmas para todos os espíritos, antigos e modernos, primitivos e civilizados – como o estudo da função simbólica, tal qual se exprime na linguagem, o mostra de maneira tão manifesta – é necessário e suficiente atingir a estrutura inconsciente, subjacente a cada instituição e a cada costume, para obter um princípio de explicação válido para outras instituições e outros costumes, com a condição, naturalmente, de prolongar bastante a análise”, afirma o antropólogo francês em seu livro Antropologia Estrutural.

A estrutura inconsciente é o objetivo final do estruturalismo. Este estruturalismo próprio das ciências humanas tem influência direta do Curso de Linguística Geral de Ferdinand de Saussure, linguista suiço do início do século XX. Saussure propunha uma divisão entre língua e fala, sendo a primeira um sistema de signos enquanto a segunda, uma prática subjetiva deste sistema feita pelos indivíduos.

Marx, por sua vez, tem papel especial no pós-guerra por ser centro das mudanças na Europa que culminaram na criação do dito marxismo ocidental, do marxismo existencialista, do marxismo analítico e, por fim, do marxismo estruturalista, de Louis Althusser. O ponto principal da teoria de Althusser era a anulação do sujeito como objeto importante na análise, sendo assim, as relações sociais eram o aspecto determinante na sociedade e, em última instância, determinavam as vontades e motivações dos sujeitos.

Freud, por fim, foi revisitado através de Lacan e revigorado em uma teoria psicanalítica que continha traços da linguística de Saussure e da antropologia de Lévi-Strauss.

Na França, um rapaz chamado Michel Pêcheux resolveu unir essas diferentes áreas de pesquisa, com seus diferentes objetos, e formar uma nova disciplina.

Pêcheux e a semântica

“Com a Análise de Discurso, podemos compreender como as relações de poder são significadas, são simbolizadas”.
– Eni Orlandi

Aluno de Althusser na École Normale Supérieure, Michel Pêcheux foi o fundador da Análise do Discurso Francesa, junto com diversos pesquisadores no Laboratoire de la psychologie sociale, que publicaram, em 1969, o texto Análise Automática do Discurso, dando início às pesquisas e desenvolvimentos num campo que tentava se firmar como disciplina na França.

Em vez de perguntar para as pessoas o que elas achavam daquilo que estavam falando e, assim, em vez de assumir um modelo de comunicação baseado num emissor que diz o que quer e um receptor que entende o que quer, Michel Pêcheux pensou num modelo que aliava a ausência do sujeito na análise (proposto por Lévi-Strauss e Althusser), que separava a língua da fala (como propôs Saussure), mas sem retirar o caráter também não-subjetivo do ato de falar. Em meio a isso, o marxismo entra como base para análise da formação social, ou seja, a luta de classes é determinante na hora de classificar as diferentes posições possíveis para o sujeito do discurso.

Segundo Pêcheux, a comunicação não ocorre com a concordância do emissor e do destinatário, mas sim com a identificação de ambos com uma mesma formação discursiva, um conjunto de enunciados possíveis de serem ditos em um dado momento específico. Essa identificação não acontece sem falhas, já que a falha é constitutiva de qualquer ritual, dirá o autor francês. É aqui que entra a noção de inconsciente influenciada por Freud e Lacan.

É a partir do inconsciente que os sujeitos não necessariamente são identificados de maneira perfeita por uma formação discursiva dada. Podemos tomar como exemplo a família tradicional: o discurso da família tradicional não consegue produzir somente sujeitos perfeitos ao seu modelo, tanto que este tipo de família perde espaço em centros humanos, em que a dinâmica das relações sociais não exige um casamento ou a divisão do trabalho tradicional (com o homem trabalhando fora de casa e a mulher sendo a dona de casa).

Análise do discurso como arma de minorias

“os médicos buscaram reafirmar constantemente o caráter patológico do desejo homossexual com o objetivo de legitimar seu lugar de enunciação. Objeto de intervenção de múltiplos saberes e poderes, o corpo homossexual foi desenhado, no Brasil da primeira metade do século XX, na fronteira das práticas jurídico-punitivas e psiquiátrico-terapêuticas”.
– Leonardo Machado e Ana Paula Martins

Com o objetivo de descobrir as formações discursivas e entender a determinação histórica da semântica, a análise do discurso funciona como uma arma das minorias, na medida em que consegue ser o aparato conceitual para desnaturalizar os discursos dominantes.

Sendo assim, a ciência médico-psiquiátrica, que insiste em transformar a transexualidade em patologia, ao ser investigada através do procedimento da análise do discurso seria exposta em sua historicidade e, desta forma, retirada de seu trono de saber absoluto.

O mesmo vale para o exemplo da família, como dito acima, que ao ser colocado em sua história pode mostrar os limites e os interesses de classe e gênero na instituição de um conjunto de relações que prende a mulher dentro de casa e coloca no homem o papel de provedor.

Mais do que uma disciplina de linguística, ela une o que três grandes autores da modernidade puderam oferecer e retira o sujeito como centro da análise, garantindo a primazia das relações sociais.

Material introdutório de análise do discurso
Como Michel Pêcheux é um autor explorado em nível muito mais alto na academia, há pouco material introdutório para pessoas que ainda não tiveram qualquer contato com a disciplina.

Por isso, o Colunas Tortas preparou um e-book introdutório com os conceitos fundamentais de Michel Pêcheux, que pode ser visto aqui.

O material é de autoria de Vinicius Siqueira, editor do site e servirá de material para o início de sua jornada na análise do discurso.

Ele aborda conceitos como condições de produção do discurso, sujeito, formação discursiva, interdiscurso, formação ideológica, pré-construído, o funcionamento da ideologia, acontecimento discursivo e memória discursiva,

Por Vinícius Siqueira, idealizador e editor geral do site  Colunas Tortas

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Vinicius Siqueira
Formado em sociopsicologia e editor do Colunas Tortas.

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