Em “Um Lugar Bem Longe Daqui”, a diretora Olivia Newman coloca a câmera bem perto de uma personagem que quase nunca teve espaço para ser entendida.

Daisy Edgar-Jones vive Kya Clark, uma jovem criada no limite entre o isolamento e a curiosidade alheia: ela mora nos pântanos da Carolina do Norte, longe do convívio urbano, enquanto a cidade mais próxima prefere completar as lacunas com versões, não com fatos.

Quando um caso criminal começa a se misturar com a vida afetiva dela, o que era apenas distância vira motivo para suspeita — e Kya passa a lidar não só com perguntas, mas com acusações.

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Kya se mantém com o que o ambiente oferece e com o que ela aprendeu a fazer sem ninguém por perto: coleta, negocia o básico, calcula cada deslocamento e evita qualquer visita desnecessária ao centro urbano.

O problema é que, em Barkley Cove, a ausência não é lida como escolha, e sim como “prova” de alguma coisa.

A cidade observa, comenta e empilha julgamentos; ela tenta seguir a vida, mas sempre com a sensação de que está sendo medida por regras que nunca ajudaram a escrever.

Barkley Cove funciona como um lugar onde a reputação chega antes da pessoa. Quando Kya precisa aparecer por lá, não é simples: tem custo emocional, risco social e um tipo de tensão que não se resolve com simpatia.

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Tate Walker (Taylor John Smith) entra como alguém capaz de atravessar a fronteira entre os dois mundos, oferecendo companhia, afeto e um caminho para um reconhecimento que ela nunca teve.

Só que essa aproximação também acende um alerta: quanto mais Kya ganha confiança e recursos, mais ela se torna conhecida — e, naquele contexto, ser conhecida significa ficar exposta a fofocas, rejeições e cobranças.

A história complica quando surge Chase Andrews (Harris Dickinson), com um tipo diferente de aproximação: menos conectada ao silêncio do pântano e mais ligada a imagem, status e expectativa social.

Kya se permite acreditar que pode ser aceita como “igual”, mas descobre rápido que há códigos ali que ela não domina — e que certas promessas vêm com cláusulas invisíveis.

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Newman filma esses encontros de um jeito que deixa a desconfortável sensação crescer: a informação nunca está toda na mesa, e o controle muda de mãos sem aviso. No fim, o que parecia proteção vira mais um ponto fraco.

Quando o sistema judicial entra em cena, o filme muda de engrenagem. A vida da personagem passa a ser organizada por prazos, procedimentos, interrogatórios e gente que decide o valor da palavra dela antes mesmo de ouvi-la direito.

Kya precisa aprender a se defender em um ambiente onde credibilidade não é distribuída de forma justa e onde dinheiro, influência e sobrenome pesam mais do que coerência.

Ela responde do jeito que sabe: com atenção obsessiva aos detalhes, consistência e uma inteligência prática que não depende de aprovação externa — cada pequena vitória custa caro, e cada recuo tem um motivo.

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O suspense aqui não vive de reviravoltas barulhentas, e sim de escolhas do dia a dia que podem dar errado. É aquela tensão que nasce de coisas simples: saber a hora de sair, a hora de ficar, o que dizer, o que calar, quem merece confiança e quem está só recolhendo informação.

A narrativa segura respostas, estica o desconforto e mantém o perigo rondando como algo normalizado — nos olhares atravessados, nas portas que não se abrem, nos acessos negados, no julgamento social que vem antes do julgamento oficial.

Tem momentos em que o filme encontra força justamente no mínimo: Kya resolve uma necessidade prática, fala pouco, engole uma humilhação, pega só o necessário e volta para o lugar onde consegue respirar.

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Essas cenas deixam claro o tipo de resistência que a história quer mostrar — não a heroína idealizada, mas alguém que aprende a sobreviver com estratégia.

O romance também é tratado sem atalhos: Tate tem suas hesitações, Chase tenta impor condições, e Kya percebe que afeto, ali, não é terreno neutro.

Cada aproximação muda a posição dela dentro daquele ambiente hostil, e cada decisão emocional tem consequência concreta.

Enquanto isso, o pântano segue como abrigo e como memória viva do que ela construiu sozinha, e a cidade continua olhando de longe — pronta para interpretar qualquer movimento como motivo para condenação.

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.