Tem romances que acabam. E tem romances que ficam em suspensão — como se a vida tivesse puxado o freio de mão bem no meio da cena.
“Desta Vez Para Sempre” parte exatamente desse tipo de corte: um sentimento que não foi “resolvido”, porque o tempo não deu espaço nem pra uma conversa final.
Lá em 1998, em Jacarta, Laela Sagan e Colin Lang vivem aquele namoro de adolescência que parece simples porque, naquela idade, quase tudo parece.

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Só que o cenário ao redor não colabora: distúrbios civis tomam conta da cidade, e o que era rotina vira urgência. Eles não se separam por desgaste, nem por briga — são separados porque o mundo decide por eles, sem despedida e sem fechamento.
Quando a história avança 23 anos, o filme não tenta vender a ideia de que “o reencontro cura tudo”. Agora é Los Angeles, e os dois já estão moldados por escolhas, perdas e caminhos diferentes. O encontro acontece por acaso e, em vez de virar fogos de artifício, vira desconforto: eles reconhecem o rosto, mas precisam entender quem o outro virou.
A graça (e a dor) é que o reencontro aqui funciona como teste de realidade. Laela e Colin não voltam a ser “o casal” automaticamente — eles precisam lidar com o que ficou pendurado lá atrás e, principalmente, com a pergunta que ninguém gosta de encarar: o que está vivo é o amor… ou a lembrança de como era sentir aquilo?

O roteiro acerta ao tratar a conversa como tentativa, não como discurso pronto. As cenas são feitas de frases que param no meio, perguntas que mudam de direção, respostas que vêm com atraso.
O silêncio tem peso de verdade, daquele tipo que aparece quando a pessoa quer falar, mas percebe que qualquer palavra pode mexer demais em coisas que estavam “guardadas” por anos.
Outro ponto forte é como o filme não transforma o passado em vitrine bonita. A adolescência deles aparece como lembrança boa, sim, mas também como armadilha: reencontrar alguém importante significa encarar a versão de si mesmo que existia naquela época — e notar o quanto ela já não cabe no presente.
A direção (e o roteiro) de Sebastian Tobler escolhe uma abordagem enxuta: poucos elementos, tempo curto, foco total nos dois personagens. É uma decisão que exige atores que sustentem camadas sem exagero — e o elenco entrega exatamente isso, no detalhe e na contenção.
Leila Perry, como Laela, foge da caricatura da pessoa “destruída”. Ela parece alguém que seguiu em frente de forma funcional, com autocontrole e vida organizada. Por isso o reencontro bagunça: não por falta de superação, mas porque remexe numa estrutura que ela construiu pra se manter de pé.

Ken Kirby, como Colin, também não entra em cena com pose de “grande declaração”. Ele chega com cuidado, quase protegido por uma postura prática de adulto que sabe o que perdeu — e sabe o tamanho do risco de abrir a porta de novo. A química dos dois mora em reações pequenas: o tempo antes de responder, o olhar que foge, a pausa na hora de tocar num assunto que ainda dói.
E Jacarta, 1998, não aparece só como lembrança distante: é o tipo de contexto que muda trajeto de vida de forma brusca. A separação deles tem um componente social e histórico que dá outra textura ao romance, sem precisar de explicações longas ou cena “aula”.
Com 88 minutos, “Desta Vez Para Sempre” não se dispersa em subtramas. Ele segura uma questão até o fim: reencontrar alguém do passado é oportunidade concreta ou vontade de reescrever o que ficou interrompido? O filme deixa o peso dessa escolha no ar — e é justamente isso que faz ele bater forte.
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