Aos 36 anos, Sérgio Chaves Pereira, um ex morador de rua e motoboy de Fortaleza (CE) voltou a estudar após duas décadas e se tornou um verdadeiro exemplo de superação – e determinação – da capital cearense.

Há algumas semanas, Sérgio – que já é formado em Direito, – recebeu a notícia de que havia sido aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

Um feito espetacular, especialmente se levarmos em conta que até alguns anos atrás, ele passava frio e fome vivendo nas ruas. Além disso, durante a faculdade, sofria rotineiros episódios de preconceito de colegas de turma na faculdade enquanto tentava conciliar os estudos com seus dois empregos.

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Foi uma vida difícil desde muito cedo. Aos 12 anos, ele viajou para Teresina, capital do Piauí, na esperança de estudar e trabalhar.

“Quando eu tinha de 11 para 12 anos, fui parar em Teresina. Por ainda ser uma criança e sem oportunidades, acabei tendo que morar nas ruas daquela capital”, lembra.

Foram meses dormindo em situação de rua e se alimentando de sobras. “Para sobreviver, eu comia frutas estragadas no Ceasa. Pastorava carros em troca de algumas moedas, lavava louças de um pequeno box na rodoviária. Às vezes, por sorte, comia sopa em um local que fornecia esse alimento gratuito para pessoas que estavam na mesma situação que eu e, às vezes, comia resto de comida do lixo.”

“Dormia nas calçadas, meu lençol eram caixas de papelão e meu travesseiro era minhas sandálias. Às vezes, quando os seguranças da rodoviária não me viam, conseguia dormir ali dentro. Passei frio, passei fome e fiquei nessa situação, por aproximadamente um ano”, acrescentou.

Há vinte anos, Sérgio viajou para Fortaleza, onde foi acolhido por Raimundo Nascimento, proprietário de um lava a jato que o tirou das ruas e deu à ele seu primeiro trabalho.

“Nonato me tirou das ruas e me deu um trabalho, um teto, comida, uma renda fixa por semana”, relatou.

“Tempos depois, à noite, comecei a fazer entregas de lanches usando como transporte uma bicicleta e durante o dia lavava carros. Os novos donos do lava a jato resolveram trocar os antigos funcionários e foi então que aluguei um pequeno quarto e passei a fazer entregas também durante o dia. Com a ajuda de um amigo, comprei uma moto e passei a fazer entregas usando esse veículo”, complementou.

Eis que em 2017 o então motoboy voltou a estudar enquanto trabalhava em dois lugares. Ele fez o Exame Nacional para Certificação de Competência para Jovens e Adultos e conseguiu o certificado de conclusão do ensino médio para, enfim, prestar o vestibular.

“Voltei aos estudos em 2017, depois de 20 anos que havia parado na 3ª série do ensino fundamental. Voltei na 4ª e 5ª, na época. Eu trabalhava em dois lugares, dia e noite. Então deixei o emprego da noite para estudar. No decorrer daquele ano, também fiz o Encceja. O resultado saiu em fevereiro de 2018 e fui aprovado. Então corri para pegar o certificado de conclusão do ensino médio. Fiz o vestibular em uma instituição particular e comecei o curso de direito”, afirmou Sérgio.

O início do curso de Direito foi desafiador, haja vista a falta de base do ensino regular de Sérgio. “Tive bastante dificuldades. Certa vez fui corrigido por um colega de sala, em um grupo de aplicativo da turma: ‘essa palavra não se escreve assim’. E por várias vezes isso se repetiu, foi então que percebi que além de estudar as disciplinas regulares do curso, que eram oito ou nove por semestre, também tive que estudar português.”

Além disso, ele precisou enfrentar preconceitos dos colegas de turma. “Também me recordo que uma das primeiras coisas que alguns dos colegas de sala fizeram foi puxar minha ficha criminal, tomei conhecimento disso muito tempo depois, ocasião em que um desses colegas militares me falou: ‘Cara, você provou para todos nós que estávamos errados ao seu respeito, uma vez puxamos sua folha corrida’. Hoje, todos são meus amigos. A prova disso é que fui escolhido como paraninfo da turma”, recordou.

Dedicado, resiliente e muito focado, Sérgio conquistou o diploma de Direito e, na primeira tentativa, foi aprovado no exame da Ordem da OAB.

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Fonte: G1

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Gabriel tem 24 anos, mora em Belo Horizonte e trabalha com redação desde 2017. De lá pra cá, já escreveu em blogs de astronomia, mídia positiva, direito, viagens, animais e até moda, com mais de 10 mil textos assinados até aqui.